O dia em que Jó disse basta

Baseado em Jó 10

O capítulo 10 do livro de Jó contém palavras duras de alguém sendo afligido por Deus. O conteúdo do discurso sugere que essas palavras de Jó foram dirigidas a Deus e não a Bildade, mesmo que não haja uma indicação explícita do narrador dizendo isso. Ao prefaciar seu discurso com a expressão “direi a Deus” (10.2), Jó parece esperar que os seus ouvintes entendessem aquela seção como um desabafo dirigido a Deus. A sequência dos diálogos irá mostrar exatamente isso, ou seja, seus amigos também entenderam desta forma – palavras dirigidas a Deus. É precisamente por esta razão que eles se tornaram enfurecidos com Jó, pois julgavam que esta não era a maneira apropriada de um homem como Jó se dirigir ao seu Deus. Há cinco tópicos tratados neste capítulo que resumem o argumento geral:

Minha queixa (10.1)

A palavra “queixa” expressa um sentimento oposto àquele que encontramos nos primeiros dois capítulos do livro, nos quais ouvimos com clareza as confissões de louvor pelo que havia ocorrido: “o Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o Senhor!” Essa “queixa” não é uma questão passageira no livro. Em 6.2 ele já dizia: “Oh! Se a minha queixa, de fato, se pesasse, e contra ela, numa balança, se pusesse a minha miséria”; um exemplo da percepção de Jó de que a sua queixa não era ouvida e nem mesmo considerada. Em 7.13 ele demonstra que tentou se esquecer da sua queixa dormindo (“Dizendo eu: consolar-me-á o meu leito, a minha cama aliviará a minha queixa”), porém o próprio Deus frustrava seu plano: “então, me espantas com sonhos e com visões me assombras; pelo que a minha alma escolheria, antes, ser estrangulada; antes, a morte do que esta tortura” (7.14-15). Em 9.27 ele se propõe a trocar a sua “queixa” por um espírito de contentamento: “Se eu disser: eu me esquecerei da minha queixa, deixarei o meu ar triste e ficarei contente”, mas novamente seu plano é frustrado: “ainda assim todas as minhas dores me apavoram, porque bem sei que me não terás por inocente” (9.28). Assim, a referência à “minha queixa” em 10.1 não é uma novidade, mas representa uma atitude prolongada que percorre boa parte do livro. Bem mais adiante, quando pensávamos que ele tinha já se esquecido de sua queixa, o assunto volta mais uma vez: “Ainda hoje a minha queixa é de um revoltado, apesar de a minha mão reprimir o meu gemido” (23.2).

Faz-me saber por que contendes comigo? (10.2)

Qual é o teor da queixa de Jó? De forma direta e resumida: “Faze-me saber por que contendes comigo?” (10.2) Observe que o centro da queixa não é o fato de Deus estar contendendo com ele, mas sim de não lhe dizer o motivo da contenda. É isso que o consome e o impede de dormir. Neste capítulo Jó retoma um assunto que ele havia iniciado quando amaldiçoou o dia do seu nascimento, a saber, por que Deus lhe permitiu nascer? “Por que, pois, me tiraste da madre?” (10.18). Neste sentido a queixa de Jó parece permanecer a mesma desde o início do seu lamento no capítulo 3. Ele ainda prefere a morte a ter que passar por tudo isso sem saber o motivo da contenda de Deus contra ele. A esse respeito os três amigos estão completamente fora do compasso com as respostas de Jó, pois eles ainda tentam justificar o direito que Deus tem de provar quem ele quiser. Mas isso Jó também aceita; o que ele não aceita é não ser informado do motivo para ele estar sendo provado daquela maneira. A resposta para esta pergunta está clara para o leitor desde o início do livro, mas Deus não pode dizê-la para não comprometer o teste ao qual ele está sendo submetido.

Parece-te bem que me oprimas? (10.3)

Se Deus não pode revelar o motivo real daquilo que estava acontecendo, Jó se aventura a propor os motivos para esta contenda. Os motivos são apresentados em forma de três perguntas: a) parece-te bem que me oprimas? b) parece-te bem que rejeites as obras das tuas mãos, e c) parece-te bem que favoreças o conselho dos perversos? Com estas três perguntas Jó faz sérias insinuações sobre a motivação de Deus ao permitir que estas coisas aconteçam. Na primeira pergunta, Jó insinua que Deus teria algum prazer no simples fato de oprimir o seu servo, mesmo que não houvesse razão para isso. De fato, como já foi dito anteriormente pelo próprio Deus, não havia nada em Jó que justificasse o tratamento que recebeu (cf. 2.3). Porém, Jó não sabe disso e, na ausência de uma justificativa melhor, ele indaga a Deus se castigar uma pessoa simplesmente por castigar é uma coisa “boa”. Na segunda pergunta Jó indaga a Deus quanto aos seus propósitos, ou seja, por que ele estaria interessado em rejeitar aquilo que ele mesmo criou e manteve por tanto tempo? Jó se descreve aqui como “a obra das suas mãos” que injustificadamente está sendo rejeitada. Mais adiante Jó parece descrever aquilo que ele entende por ser rejeitado: “Lembra-te de que me formaste como em barro; e queres, agora, reduzir-me a pó? Porventura, não me derramaste como leite e não me coalhaste como queijo? De pele e carne me vestiste e de ossos e tendões me entreteceste. Vida me concedeste na tua benevolência, e o teu cuidado a mim me guardou” (10.9–12). No caso da terceira pergunta, Jó indaga a Deus quanto ao conselho dos perversos sendo favorecido com a situação em que ele se encontra. É bem possível que o “conselho” que ele tem em mente são as palavras dos seus três amigos. Se não há resolução, se Deus não se mostra favorável à situação do seu servo, se ele não se posiciona em relação àquilo que eles têm falado, o resultado acaba favorecendo a opinião dos perversos.

Estas coisas ocultaste no teu coração (10.13)

Quais são as “coisas” que Jó diz que Deus ocultou em seu coração?  O que significa para Deus ocultar algo em seu coração? O relato imediatamente anterior descreve “as coisas” que Deus teria, na opinião de Jó, ocultado em seu coração. São elas: a) o modo como Deus criou o ser humano: “Lembra-te de que me formaste como em barro” (10.9); b) o modo especial como tratou o seu servo até aqueles dias: “Porventura, não me derramaste como leite e não me coalhaste como queijo?” (10.10); e c) o modo cuidadoso como Deus havia lhe guardado até aqueles dias: “Vida me concedeste na tua benevolência, e o teu cuidado a mim me guardou” (10.12). Estas são as “coisas” que Deus teria escondido em seu coração. O que Jó está dizendo com “esconder no coração” é a aparente irrelevância que todas estas coisas têm agora, como se Deus tivesse sufocado todas estas lembranças no fundo do seu coração. Daí o clamor de Jó: Lembra-te! Este verso 13 termina com uma confissão que revela o centro da compreensão que Jó tem da situação: “mas bem sei que isto [ou seja, a decisão de tratá-lo desta maneira] tem a ver com o que resolveste em teu coração” (10.13b, minha tradução). Em nenhum momento em toda a história do livro Jó duvida do autor de todas essas coisas. Nesse verso, contudo, ele confessa acreditar que Deus já tinha resolvido fazer isso.

Deixa-me! (10.20)

A última seção desse discurso de Jó culmina com seu pedido desesperado e sombrio: “Deixa-me!” (10.20). Não há necessidade de entendermos este clamor de Jó como um desejo de abandonar a Deus; isto não é uma decisão de apostasia. Há dois motivos que estão por detrás deste pedido de Jó: a) a severidade do tratamento de Deus e b) a brevidade de sua vida. A severidade do tratamento de Deus, na visão de Jó, é descrita a partir do verso 14 e culmina com a comparação do trato de Deus como se fosse um “leão feroz” (10.16). Com este cenário em mente, o pedido de Jó para Deus o deixar em paz parece não estar associado com sua fé; ele apenas quer um alento, como ele mesmo diz (cf. 10.20). Com respeito à brevidade da vida, Jó parece acreditar que a sua morte está próxima quando diz: “não são poucos os meus dias?” (10.20). Embora isso possa parecer que ele esteja se referindo à brevidade da vida como um todo, o final do verso deixa claro que ele olha para frente, para aquilo que lhe aguarda: “… antes que eu vá para o lugar de que não voltarei” (10.21). Essa confissão será posteriormente corrigida ou complementada por ele, mas nesse momento a sua fala expressa claramente a convicção de que sua morte selará para sempre uma história que não poderá mais ser corrigida ou explicada diferentemente. Se ele morrer nesta condição, ou seja, oprimido por Deus sem nenhum motivo aparente (pelo menos para ele), a sua história será contada na perspectiva dos seus três amigos. Aqui, mais uma vez, Jó prefere a morte a esta tortura: “Ah! Se eu morresse antes que olhos nenhum me vissem!” (10.18). A descrição que Jó faz do local aonde ele acredita estar indo é marcada por trevas e caos, conforme lemos no verso 22. Por quê, então, ele pede a Deus que o deixe no momento quando mais precisaria dele? Diferente da confissão do salmista no salmo 23, que não temia ter que passar pelo vale da sombra da morte por causa da presença do Senhor com ele, será que Jó pede exatamente o contrário? Creio que não. O distanciamento solicitado por Jó se aplica ao período antes de sua morte; ele quer o alívio da mão de Deus para poder gozar de alguns dias de alento, antes que finalmente vá para a terra das trevas e da sombra da morte.

 

Daniel Santos

 

 

 

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