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Como colocar algo nesse coraçãozinho?

A ordem dada por Deus em Deuteronômio 6.6-9 de que devemos inculcar suas palavras no coração de nossos filhos quando andando, assentando ou deitando é um grande desafio, especialmente para quem tem filhos pequenos.  Se tem três coisas que crianças pequenas têm muita dificuldade em fazer são: ficar sentadas, andar (eles geralmente preferem correr) e se deitar. Fico imaginando pais com dois ou três filhos pequenos, lendo uma instrução como essa. O que deve passar pela mente deles? Por outro lado, penso também nos pais que ouviram essas instruções diretamente de Moisés. Que tipo de desafios tais instruções impunham sobre eles? Nesse post eu gostaria de avaliar os desafios que os pais que ouviram essa instrução pela primeira vez enfrentaram e comparar com os nossos desafios hoje. Comecemos com a instrução propriamente dita:

 

Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas.
(Deuteronômio 6.6–9)

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Desafio 1: O acesso à informação

Na sociedade em que vivemos hoje, particularmente entre os cristãos, a possibilidade de não ter acesso à palavra de Deus de forma escrita ou digital é praticamente inimaginável. Há muitas famílias que certamente possuem uma dúzia de bíblias espalhadas pelas prateleiras ou gavetas ao redor da casa; bíblias que não foram sequer tocadas nos últimos cinco anos. Isso não significa necessariamente que a leitura bíblica não esteja acontecendo; a maioria dessas famílias tem acesso à palavra de Deus por meio de um aplicativo no celular ou computador.

A situação nos dias de Moisés era bem diferente. A instrução encontrada no verso 6, dizendo que as palavras ditas por ele naquela ocasião estariam “no coração deles” é comumente interpretada como sinônimo de uma instrução levada a sério, uma instrução da qual não nos esqueceríamos, uma instrução guardada com carinho. Raramente, para não dizer nunca, leitores cristãos vivendo em nossa sociedade hoje entenderiam disso que as palavras de Moisés não seriam disponibilizadas em algum formato que pudessem ser consultadas quando necessário. Como disse, essa é uma conclusão inimaginável para nós, mas meio que óbvia para os primeiros leitores desse texto.

De que maneira isso representava um desafio? Ora, se você sabe que a instrução de importância extrema para sua vida e a vida de seus filhos será dita apenas uma vez e, depois, o acesso à informação será bem mais difícil, a primeira reação nossa seria recorrer a um papel e caneta para tomar nota, ou gravar um áudio no celular. No caso do povo de Israel, uma sociedade que não dispunha dos benefícios da impressão e as facilidades de fazer cópias, o desafio era outro, a saber, memorizar o conteúdo.

Por razões óbvias, Moisés não tinha como providenciar uma cópia da lei para cada família dentre os filhos de Israel. Será que não era possível fazer uma escala para cada família ter acesso à Lei só por uma semana? Imagine por um instante o que isso significaria. Digamos que 10% dos 603.550 mil homens com mais de 21 anos (cf. Nm 1.46) representasse um total de 60.335 mil famílias no povo de Israel. Considerando que um ano tem 52 semanas, uma família  teria a chance de ter acesso semanal à lei de Deus se repetiria a cada 1.160 anos. Percebe o tamanho do problema?

Sabendo disso, Deus providenciou meios para auxiliar os israelitas nesse desafio de manter a sua palavra “no coração” deles. Ele ordenou que a sua lei fosse lida de forma pública durante as festas solenes anuais, mas mesmo assim, fico imaginando com seria essa leitura. Uma leitura do conteúdo integral do Pentateuco, lido sem interrupção na língua original, leva 15 horas e 36 minutos. Se a leitura começasse às 06:00 terminaria 21:00. Imagine se 1% dessas famílias tivesse uma pergunta para fazer sobre o que foi lido?

Em suma, não dava para depender das leituras públicas para ter as palavras de Deus no coração. Para os pais daquela geração que ouviu essas instruções de Moisés, o desafio de guardar tais palavras no coração deve ter sido muito maior do que o de repetir aos filhos. Isso muitas pessoas hoje não consideram. O nosso desafio hoje é bem menor por termos acesso integral e imediato às Escrituras. Aproveitemos essa oportunidade.

Segundo desafio: O sentido de “inculcar”

Pais de filhos pequenos conhecem muito bem o desafio enorme de inculcar na cabeça deles informações que podem salvar suas vidas. Muitos pais não se importam de repetir mil vezes a mesma informação contanto que, ao final, o resultado seja positivo. O desafio é saber se está funcionando mesmo ou se as palavras estão entrando por um ouvido e saindo pelo outro. Qual deve ter sido o maior desafio para os pais que ouviram essa instrução pela primeira vez?

O termo hebraico usado aqui para inculcar significa basicamente “repetir”, sendo que a responsabilidade de repetir não era dos filhos, mas dos pais. Eram eles que deveriam manter a disciplina de repetir as palavras ouvidas da boca de Moisés, ou as palavras ouvidas nas festas solenes anuais. Didaticamente falando, isso gera um problema em relação ao conteúdo daquilo que devia ser repetido; há conteúdos que são apropriados para a repetição e há outros que não.

Mais uma vez, a multiforme sabedoria de Deus parece ter pensado nisso antecipadamente. Já que o objetivo era repetir as palavras aos filhos e aos filhos dos filhos, Deus se incumbiu de mesclar longas narrativas juntamente com os blocos mais densos contendo leis. Na verdade, quando faço um levantamento do conteúdo do Pentateuco, popularmente conhecido como o livro da lei, sou surpreendido com a estatística. O Pentateuco contém 5.795 versículos e somente 28% desse total é dedicado ao que efetivamente chamamos de “lei”. Os trechos onde encontramos as leis são: Êx 20.1-17; 20.22 – 23.19, Levítico e Deuteronômio 12-26. Os 72% restantes são histórias fascinantes de como pessoas como eu e você enfrentaram suas lutas, derrotas e vitórias enquanto tentavam andar nos caminhos do Senhor.

Desta forma, o desafio que os pais naqueles dias tiveram foi minimizado pelo cuidado de Deus em controlar o conteúdo a ser passado adiante. As leis são mais apropriadas para a repetição, enquanto que as histórias despertam um espírito de participação dos que ouvem com perguntas e comentários. O elemento que mais instigava os comentários dos filhos era o seguinte: os pais que tiveram que contar essas leis/histórias pela primeira vez estavam contando a sua própria história, relatando as muitas vezes que não seguiram as instruções e os mandamentos de Deus. Pense na situação. Imagine os filhos ouvindo essas narrativas e perguntando aos seus pais: “mas, por que vocês fizeram isso?”

A obediência à essa ordem de repetir e inculcar aquelas palavras custava, em muitos casos, o vexame de contar as próprias falhas diante dos olhos perplexos de filhos e filhas que precisavam aprender a amar a Deus. Como contar os seus erros aos filhos de um modo que suscitasse neles o desejo de fazer o oposto do que os pais fizeram? É exatamente isso que Moisés estava fazendo no livro de Deuteronômio; ele estava elaborando uma narrativa que pudesse ser contada aos filhos para que eles não agissem como seus pais. Quando penso nessas coisas, lembro-me das palavras no Salmo 78:

 

Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes; para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus.
(Salmo 78.5–8)

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Terceiro desafio: O contexto da instrução

Finalmente, chegamos ao terceiro desafio lançado pela instrução de Moisés – o contexto onde a repetição deveria acontecer. Nas conhecidas palavras “assentando em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” há dois elementos que não mudam – aquele que falava e o que ouvia. O que está alternando é o contexto onde a instrução acontecia.  Assim sendo, o significado de “fale assentando em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” não é o de falar sempre, o tempo todo, sem parar, mas sim o de falar em contextos variados. Para mim esse é o grande segredo guardado no famoso provérbio “Ensina a criança no caminho em que deve andar…” (Pv 22.6). O desafio desse provérbio está primeiramente focado no contexto e não no conteúdo: Ensina no caminho. O contexto no qual repetimos as palavras ditas por Moisés faz toda a diferença.

O desafio que os pais nos dias de Moisés tiveram foi o de não deixar que essas instruções se tornassem objeto de estudo especializado e vinculado apenas com o contexto do tabernáculo ou do templo. Como disse anteriormente, essas leis e histórias que deveriam ser repetidas tinham a ver com os pais que as contavam. Logo, fazia muita diferença ouvir da boca deles o que eles mesmos fizeram de errado e as consequências inevitáveis dos seus erros sobre a vida dos filhos que ouviam tais histórias.

Portanto, não pense que essas leis foram dadas somente para uso em contextos solenes nas grandes festas em Israel. Muito pelo contrário; elas deveriam ser parte do ciclo rotineiro de cada família. As palavras desses pais, repetindo as instruções de Moisés, soavam quase como uma confissão de seus pecados diante dos filhos. Se Deus não tivesse ordenado que isso fosse repetido e inculcado nos corações das gerações seguintes, tais relatos seriam convenientemente esquecidos.

Quanto desse terceiro desafio aplica-se para os pais de nossos dias? O constrangimento que os pais nos dias de Moisés tiveram pode ser temporariamente evitado pelo fato de o relato não tratar literalmente daquilo que nós fizemos. A história fala do que os israelitas fizeram e não do que eu fiz.  Além disso, as histórias foram contadas para os filhos deles e não aos nossos. Eu gostaria de desafiar você a pensar no grande perigo em usar essa justificativa. No momento em que desvinculamos o conteúdo dessas instruções com a nossa própria vida nós também quebramos o vínculo que tais instruções deveriam ter com a vida de nossos filhos. O objetivo de Deus nunca foi o de incentivar os pais a repetirem aos filhos relatos de pecados alheios, mas sim o de criar um ambiente familiar onde os filhos pudessem observar seus pais lutando para andar nos caminhos do Senhor.

Veja, a ordem para “falar assentando em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” visava expor a rotina dos pais para uma comparação. Se eu sei que terei que dizer ao meu filho quando colocá-lo na cama para dormir que ele deve honrar o pai e a mãe, eu preciso ter demostrado durante o dia que isso é uma verdade para mim também. Quando essa relação não acontece e o vínculo com nosso próprio contexto é ignorado, a dúvida que os filhos terão será com a razão de se obedecer tal preceito. O nosso desafio hoje é não deixar que esse vínculo com o nosso contexto seja rompido. Nossos filhos precisam saber por que obedecemos os mandamentos do Deus que servimos e amamos. Veja a advertência de Moisés nesse sentido:

 

Quando teu filho, no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o Senhor, nosso Deus, vos ordenou? Então, dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó, no Egito; porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão. Aos nossos olhos fez o Senhor sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra o Egito e contra Faraó e toda a sua casa; e dali nos tirou, para nos levar e nos dar a terra que sob juramento prometeu a nossos pais. O Senhor nos ordenou cumpríssemos todos estes estatutos e temêssemos o Senhor, nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como tem feito até hoje.
(Deuteronômio 6.20–24)

 

Em resumo: Nosso objetivo hoje é fazer com que nossos filhos entendam que somos parte da mesma história que contamos, pois conhecemos e servimos o mesmo Deus que Moisés serviu, o qual está preocupado com o nosso perpétuo bem. É sempre mais fácil explicar aos nossos filhos como eles devem obedecer a Deus do que convencê-los do porquê eles devem obedecer. Entretanto, não estamos sozinhos. As instruções “e as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” é um exemplo de uma instrução indireta e não por meio da repetição. Os pais colocavam as mensagens nos locais estratégicos, mas o aprendizado acontecia entre a criança e Deus. Nunca subestime o que Deus pode ensinar aos nossos sem a nossa ajuda.

A conclusão a que chagamos é a seguinte: as dificuldades que mencionei no início, tratando de pais com filhos pequenos, dificilmente passariam pela cabeça dos primeiros israelitas que ouviram essa instrução da boca de Moisés. O desafio era bem diferente do que encontramos hoje. Reflitamos nos desafios dos primeiros leitores e repensemos os nossos. A minha convicção é de que o mesmo Deus que preparou um conteúdo pensando nos pais que teriam que repetir aos seus filhos naqueles dias também pensou em nós.

Daniel Santos

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Professor, pesquisador e pastor. Amo ouvir, refletir e divulgar boas ideias. Creio, sigo e sirvo o Deus que se revelou nas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos.

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