Quem foram os nephilins?

O termo “nephilins” é usado no Antigo Testamento para se referir a gigantes, conforme Gênesis 6.4 “Ora, naquele tempo havia gigantes na terra…”. Algumas versões da Bíblia preferem não traduzir o termo hebraico nesta passagem e usam apenas uma transliteração nephilim (NIV). Por que as versões em português traduzem o termo nephilim como gigantes? Há dois motivos principais: Primeiro, a referência feita aos nephilins em Números 13.33 apresenta-os como pessoas cuja estatura era visivelmente desproporcional à dos demais seres humanos:  “Também vimos ali gigantes (os filhos de Anaque são descendentes de gigantes), e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos”. Segundo, a tradução grega do Antigo Testamento escolheu o termo γιγαντες (gigantes) para traduzir o termo hebraico nephilim. Por essa razão, a maioria das traduções para o português preferem seguir o termo grego “gigantes” a usar a transliteração nephilim. A propósito, você sabe o que é uma “transliteração”? Transliterar significa escrever uma palavra que está num idioma diferente, usando as consoantes e vogais do nosso idioma. Transliterar não é a mesma coisa que traduzir.

De onde vieram os nephilins?

É comum ouvir que os nephilins tiveram sua origem no relacionamento entre os filhos de Deus com as filhas dos homens, conforme lemos em Gn 6.4. Os que seguem essa linha de raciocínio entendem a expressão “filhos de Deus” como uma referência a seres angelicais. Como chegam a essa conclusão? Há uma referência no chamado “Primeiro Livro de Enoque” comentando detalhadamente o ocorrido nos dias de Noé. O livro de Enoque é considerado literatura pseudoepígrafa. O que é isso? Um livro considerado pseudoepígrafo significa que seu título ou autor não é verdadeiro; no caso de autor, é um pseudônimo. O livro de Enoque é datado do ano 300 a.C., mas afirma conter palavras do personagem bíblico Enoque, que foi citado, pela primeira vez, na genealogia de Adão (Gn 5.18-24). Embora o Primeiro Livro de Enoque seja considerado parte das Escrituras na Igreja Ortodoxa da Etiópia, ele não aparece nem na Bíblia Hebraica nem na tradução grega chamada Septuaginta.

O livro de Judas menciona um episódio narrado no livro de Enoque nos seguintes termos: “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo…” (Jd 14). Embora isso não signifique um atestado de veracidade de tudo o que está escrito no Primeiro Livro de Enoque, muitos usam essa referência de Judas para “canonizar” esse livro pseudoepígrafo. Dessa forma, a força do argumento de que os nephilins vieram do relacionamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens vem primariamente dos comentários encontrados no Primeiro Livro de Enoque.

O que a Bíblia diz sobre isso? Leia novamente o texto de Gn 6.4: “Ora, naquele tempo havia gigantes [nephilins] na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade”. O texto bíblico não diz que o relacionamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens gerou gigantes. Já havia gigantes na terra quando esse tipo de relacionamento aconteceu. O que resultou, desse tipo de relacionamento, foram os “valentes” e “varões de renome”, mas não os gigantes. A discussão se os filhos de Deus eram ou não seres angelicais é irrelevante para a compreensão do texto, pois aquilo que eles geraram não foi chamado de “gigantes.

Então, havia ou não havia gigantes?

O fato de os nephilins não terem vindo do relacionamento sugerido no Primeiro Livro de Enoque não nega a existência de gigantes. Como já foi mencionado, Número 13.33 estabelece uma relação dos nephilins com outros povos da terra, particularmente os Anaquins que eram descritos como gigantes. Os refains também eram considerados gigantes; Deuteronômio menciona especificamente um caso: “Porque só Ogue, rei de Basã, restou dos refains; eis que o seu leito, leito de ferro, não está, porventura, em Rabá dos filhos de Amom, sendo de nove côvados o seu comprimento, e de quatro, a sua largura [4.0 x 1.80 m], pelo côvado comum?” (Dt 3.11).

3 Comentários

    • Daniel Santos

      3 de junho de 2017 at 21:16

      Olá Willian, bem-vindo ao mundo da pesquisa, onde o contraditório só incentiva a continuidade do estudo. Leandro e eu somos colegas de trabalho e conhecemos a opinião um do outro. Continuamos amigos e felizes.




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  • Adam Cândido

    1 de novembro de 2016 at 10:06

    Em um artigo, um colega seu diz o seguinte:
    “- O sentido da expressão “e também depois” não parece indicar que os nefilins estavam na terra “antes” dos filhos de Deus se unirem às filhas dos homens. O texto começa explicando que os nefilins estavam sobre a terra naqueles dias, tendo já mencionado que os filhos de Deus tomaram mulheres para si. Portanto, o “também depois” quer explicar que os nefilins continuaram existindo na terra “também” após aquele acontecimento da união. Eles só seriam destruídos no dilúvio.”

    Não seria uma interpretação um pouco forçada??




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