A longa e conturbada espera de Davi

Episódio I: A alegria de um é a o tormento do outro

Após ter sido ungido rei pelo profeta Samuel, Davi aguardava ansiosamente o grande dia quando se assentaria no trono como o segundo rei de Israel. A espera demorou mais do que ele antecipava, mas finalmente chegou o convite do palácio:

“Sua majestade, o rei Saul, convoca para comparecer em sua presença o jovem Davi, filho de Jessé!”  diz o mensageiro.

Davi mordia os lábios com força tentando conter dentro da boca a avalanche de alegria, enquanto assinava o recebimento da convocação real. Sua mãe, por outro lado, estampava um sorriso que ia de uma orelha à outra, enquanto dizia para si mesma:

“Quem diria? Meu Davizinho ungido pelo grande profeta Samuel e agora convocado para se o rei de Israel.”

Bem, essa é a parte mais suave de uma longa história cheia de tempestades. Deixe-me contar a parte tenebrosa. Embora Davi já tivesse sido ungido pelo profeta, a pessoa que ele iria substituir ainda lutaria até a morte antes de deixá-lo assumir o cargo. Não sabemos ao certo se Saul tinha conhecimento de que Davi havia sido ungido, já que a cerimônia foi privada, ou se ele apenas ignorava o que ocorreu numa tentativa de corrigir seu vacilo imperdoável. Uma coisa ele sabia: Deus o havia rejeitado. Uma coisa ele não sabia: Deus havia retirado o Espírito que o capacitava para governar e havia colocado sobre seu sucessor. Uma coisa ele nem sonhava: Deus havia enviado um espírito maligno para atormentá-lo, deixando-o sempre com os nervos a flor da pele.

Ora, os servos de Saul já tinham percebido que o seu comportamento mudara assustadoramente. Ele sempre andava pelo palácio com uma lança – muito bonita, mas muitíssimo perigosa. Era estranho. Os servos já haviam observado que, enquanto eles e os conselheiros prestavam relatórios, Saul ficava olhando para a ponta da lança como quem mira para acertar um alvo. Sempre que a distração do rei com a sua arma parecia muito óbvia, ele rompia o silêncio e dizia:

“Continuem, estou ouvindo tudo. Estou vendo também.”

Várias semanas se passaram e a fixação do rei com sua arma começava a incomodar seus servos e conselheiros. Isso não era sem razão, pois diversas vezes ele a arremessou contra a parede durante uma fala de um conselheiro (tirou uma fina!), mas se desculpou dizendo que tinha visto um inseto nojento andando na parede. Desse dia em diante, os conselheiros começaram a prestar seus relatórios olhando diretamente para o rei, temendo que outro inseto nojento pudesse causar um novo surto nervoso sem um final feliz. Foi nesses dias que tudo aconteceu. Cansados da tensão e da angústia constantes, os servos resolveram investigar a situação e achar uma solução para o problema. Eu não sei como eles descobriram, mas o diagnóstico detectou exatamente o que estava acontecendo:

“Só pode ser um espírito maligno atormentando-o”, afirmou um conselheiro.
“Um espírito maligno?! Você está louco?” argumentou o chefe da guarda.
“Não, quem está louco é ele. Eu só estou diagnosticando o problema” respondeu.
“Sim, mas se for esse o problema, como vamos dizer isso a ele?” argumentou chefe da guarda.
“Alguém tem que levantar o assunto”, respondeu o conselheiro com o mesmo tom de voz.
“Alguém?! Esse alguém por acaso tem nome? O problema não é levantar o assunto, você sabe disso, mas dar continuidade a ele. Como é que vamos justificar nosso diagnóstico? Ele vai querer saber de quem foi a ideia. Todos aqui estão dispostos a assumir juntos a responsabilidade?” Perguntou o conselheiro.
“Eu não” respondeu um servo.
“Eu também não” apoiou outro conselheiro.
“Eu já disse que não concordo com essa história de ‘espírito maligno ‘ e não vou colocar minha cabeça em risco por causa disso”, justificou outro servo.
“Senhores, não vamos recomeçar toda a discussão. Já ouvimos e pensamos a respeito de todas as outras possibilidades”, interrompeu o conselheiro-chefe.

Um breve período de silêncio tomou conta da reunião; conselheiros e servos olhando para o teto com a mão no queixo. Não é fácil entender as estratégias de Deus. Por que ele enviaria um espírito maligno para atormentar o rei se ele já havia sido rejeitado? Essa é a parte que muitos não pensam: entender o que Deus está fazendo enquanto tomamos decisões em nossas vidas. Mais difícil ainda: saber se é Deus mesmo quem está por trás do que está acontecendo.

“Não teria um jeito de tratar o comportamento dele sem ele precisar saber sobre essa história de espírito maligno?”, perguntou um conselheiro que ainda não tinha falado nada até agora.

Silêncio novamente na reunião. Todos pensando. Ninguém falando. Há momentos na vida que as decisões finais precisam ser tomadas sem que tenhamos o tempo necessário (ou a sabedoria) para pensar em todos os detalhes. Essa é a dificuldade em tomar decisões que agradam a Deus, pois geralmente não sabemos o que ele está fazendo. Os conselheiros ainda meditavam nas possibilidades quando o inesperado aconteceu.

“O que vocês estão tramando a portas fechadas sem a minha presença? Qual é o motivo desta reunião?” grita Saul com os olhos cheios de uma fúria fora do controle, segurando na mão a miserável lança que hoje parecia ter a ponta bem mais afiada do que já esteve antes.

O susto e o aspecto do rosto do rei foram motivos suficientes para todos os conselheiros aceitarem finalmente a ‘história do espírito maligno’. Não tinha como negar, havia algo de errado com ele e a melhor explicação era essa mesmo.

“Ó rei, meu senhor, teus servos estavam aqui pensando exatamente no teu comportamento estranho ultimamente”, respondeu o conselheiro que havia ficado em silêncio o tempo todo.
“Que comportamento?” perguntou Saul.
“A fúria do meu senhor. Jamais o vimos desta maneira”, respondeu o conselheiro.
“Fúria?” perguntou Saul com o semblante agora semelhante ao do próprio diabo. “E qual foi a conclusão que vocês chegaram?” perguntou ele.
“Um espírito maligno”, respondeu o chefe da guarda.

Todos os conselheiros olharam para ele com um olhar de quem queria matá-lo por ter trazido a assunto de maneira tão prematura e abrupta.

“Da parte de Deus, ó rei, não um espírito qualquer. Um espírito maligno enviado por Deus para te atormentar”, acrescentou o chefe da guarda com um ar de sabedoria, o qual, pelo jeito, entendia muito pouco de teologia.

Como ele esperava aliviar a situação dizendo que o tal espírito maligno era da parte de Deus? Agora os conselheiros têm dois problemas: explicar que o comportamento de Saul é devido ao tormento do espírito e explicar que Deus é o responsável por isso. Grande solução! Que ideia brilhante. Onde ele pensa que vai chegar com isso? Pensavam os conselheiros balançando a cabeça.

“Nós pensamos também numa solução, ó rei”, continuou o chefe da guarda.
“Na verdade, ainda não tínhamos achado nenhuma solução, meu senhor”, interrompeu um dos conselheiros tentando evitar que todos fossem penalizados pelas ideias do chefe da guarda.
“Não, deixe-o falar. Estou interessado em saber a solução que ele encontrou”, acrescentou o rei.

De certa forma, todos os conselheiros estavam curiosos para saber qual foi a solução que ele havia encontrado, mas tal curiosidade perdia força sempre que eles olhavam para aquela lança.

“Decidimos que chamaremos uma pessoa que saiba tocar bem a harpa na tua presença e, quando o espírito maligno vier te atormentar, ele tocará e afastará o espírito de ti”, explica o chefe da guarda, encerrando sua fala com um sorriso que mostrava apenas os dentes do maxilar inferior.
“Humm, interessante. E vocês já sabem onde encontrar uma pessoa que saiba tocar bem a harpa e possa com isso afastar o tal espírito maligno?”, perguntou Saul.
“Isso não é difícil de encontrar”, respondeu.

Os conselheiros todos olharam para o chefe da guarda como quem diz, “muito bem, espero que tenha pensado já num nome antes de sair com essa”. São em momentos como estes que vemos a maneira miraculosa e inexplicável de Deus trabalhar e cumprir os seus propósitos. Havia naquele dia, naquele salão, um garçom que servia os conselheiros e ouvia a conversa. Para a surpresa de todos os presentes, ele quebra o silêncio e oferece uma solução.

“Conheço um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é forte e valente, homem de guerra, fala bem e de boa aparência; e o Senhor é com ele”, falou o servo encerrando sua fala olhando para o chão, sem a coragem de olhar na face do rei.
“Olhe só! Estamos procurando um músico já encontramos alguém que sabe fazer quase tudo”, responde o chefe da guarda.
“Ok. Ache-o e traga-o até aqui. Vamos fazer o teste. Eu ando querendo mesmo testar esta lança há um bom tempo. Quem sabe?” conclui o rei.

E assim foi que o nome de Davi chegou ao conhecimento do rei. Foi assim que ele foi lembrado após um longo período de espera depois da sua unção pelo profeta Samuel. Há duas lições que podemos aprender com o que aconteceu.

Lição 1: Deus raramente age em isolamento. A história bíblica e também a contemporânea tem nos ensinado que ele dificilmente intervém numa situação em completo isolamento de tudo o mais que acontece ao redor do mundo. O plano que ele tinha para Davi era visto por ele e sua família como uma intervenção personalizada e privilegiada, tratando somente da situação de uma pessoa. Porém, na grande rede de conexões de Deus, muitas pessoas estão envolvidas e sendo abençoadas enquanto ele se mostra favorável a Davi. Muitas pessoas estão sendo usadas, uns de forma consciente outros de forma inconsciente, para fazer acontecer aquilo que irá finalmente nos beneficiar diretamente. Assim sendo, tenha um pouco mais de paciência ao esperar Deus agir em seu favor.

Lição 2: Deus raramente usa todos os talentos de uma pessoa ao mesmo tempo. Embora Davi tivesse sido ungido para ser rei, seu nome estava sendo lembrado agora para tocar harpa apenas. Como foi bem lembrado pelo servo, além de tocar a harpa Davi era forte valente, homem de guerra, falava bem, tinha boa aparência e o Senhor era com ele. Nenhuma destas qualidades estava sendo considerada no momento. A medida em que nos preparamos para sermos usados por Deus, precisamos nos lembrar disso: o fato de eu ter investido fortemente em meu perfil de valente ou de orador não é uma razão suficiente para Deus ter que me usar naquela área. A oportunidade agora era para tocar a harpa. A oferta era para “pegar ou largar”. Ao chegar no palácio, Davi terá que decidir se aceitará ou não a pequena e estranha porta que foi aberta por Deus. [continua na próxima semana]

 

Episódio II: Chegou o dia.

O dia chegou. Davi se preparava para comparecer diante do rei, conforme as instruções da convocação que recebera. O que levar? Quanto tempo ficaria lá? Como deveria se vestir para comparecer à presença do rei? Todas essas perguntas passavam por sua mente e mal sabia ele que seus pais já estavam bem adiantados nos preparativos.

– Tudo isto é para eu levar?, perguntou Davi assustado com o tamanho da sua bagagem só com as coisas que seus pais queriam que ele levasse.
– Calma querido, você não vai precisar carregar isto. Seu pai já preparou um jumento para levar estas lembrancinhas com você.
– Mãe, lembrancinha pra quem? Eu não conheço ninguém lá. Pare com isso.
– Confira Jessé, eu vou falando e você me diz se já está ai, prosseguiu sua mãe ignorando completamente o comentário de Davi, e começou a conferir a lista.
– 1 fardo de pães com ervas?
– 1 fardo de pães.
– 1 fardo de bolos?
– 1 fardo de bolos.
– 1 galão de vinho?
– 1 galão de vinho.
– 1 cabrito?
– Cabrito?, perguntou Davi. Para que um cabrito?
– 1 cabrito, Jessé?! repete sua mãe a mesma pergunta aguardando a confirmação.
– Uuum cabrito, confirma Jessé.
– Lembre-se de colocar a harpa, disse Davi.
– Querido, você não vai ter muito tempo para tocar nos próximos meses.
– Mãe, o mensageiro do rei me disse pessoalmente para trazer comigo a harpa.
– 1 harpa?
– 1 harpa”, responde Jessé, colocando-a entre os fardos de pães.

Os preparativos dos pais de Davi revelam que eles também estavam alimentando uma grande expectativa quanto ao futuro de seu filho no palácio. O carregamento listado acima faz parte de uma cultura israelita primitiva de banquetear com alegria e gratidão àqueles que se mostram generosos para com o seu próximo. Jessé sabia que os acontecimentos recentes envolvendo a rejeição de Saul ainda deviam estar na mente dos que viviam ao redor do palácio. Embora Saul tivesse admitido seu erro e tivesse pedido perdão, o Senhor não voltou atrás em sua decisão e o profeta nunca mais se encontrou com o rei daquele dia em diante. O clima era tenso. Assim, a alegria de Davi poderia facilmente ser interpretada pelo rei como uma atitude fingida em relação aos fatos recentes. Por este motivo seus pais preparam este pequeno gesto de gratidão antecipando tudo o que pudesse acontecer na chegada de Davi. Partiu Davi em direção ao palácio sem ter a menor ideia do que o aguardava. Sua expectativa era de se tornar o sucessor de Saul em algum momento após a sua chegada, mas os detalhes desta transição ainda não estavam claros em sua mente. A expectativa de seus pais caminhava na mesma direção, mas eles estavam preparados para possíveis variações no plano original. Nesse caso, as ofertas enviadas seriam providenciais para preparar os ânimos de todos. Davi entra na cidade puxando seu jumentinho carregado de ofertas e presentes, observando que a expectativa da sua chegada não parecia combinar com a chegada daquele que será o sucessor no trono de Israel.

– Seja bem-vindo, Davi ben-Jessé! saudou o chefe da guarda palaciana.
– Servos, acompanhem os moços que vieram com Davi e ajudem a tirar… Isso tudo vai ficar aqui?, perguntou o chefe da guarda tentando entender o motivo de tanta bagagem.
– Então, veja só: meus pais prepararam este carregamento como uma oferta para um banquete na presença do rei. São pães feitos com nossa produção e o cabrito é o melhor do nosso rebanho, explica Davi.
– Certo, certo. Vamos pensar melhor como e quando faremos isso. Por agora, venha comigo; o cabrito fica.

Quando Davi chegou ao palácio ele não era um rapazinho magricelo e imaturo. Ao sugerirem o seu nome, a lembrança que os servos tinham era a de um homem de guerra, fisicamente forte, homem de boa aparência, com menos de trinta anos, que não gaguejava quando lhe era perguntado alguma coisa, mas falava com clareza e com um timbre que demonstrava segurança naquilo que falava. 

– Por favor! Parou o chefe da guarda diante de uma grande porta, acenando com a mão para que Davi entrasse na sua frente.
– Senhores, eu vos apresento Davi ben-Jessé! o chefe da guarda anuncia o seu visitante ilustre ao comitê de recepção. 

Uma rodada completa com saudações e cumprimentos foram suficientes para inserir Davi no meio deles como um que veio para ficar. Todos se assentaram à mesa, o chefe da guarda e Davi de um lado, os demais no lado oposto. Sorrisos e olhares atentos acenavam ao visitante que após as formalidades viria a tão aguardada “proposta”. Davi achou estranho não encontrar Samuel naquela reunião, já que ele era a pessoa que oficialmente o havia ungido rei sobre Israel, conforme instrução do Senhor. Ninguém naquela mesa estava presente na ocasião quando a unção de Davi ocorreu. E agora? As indagações na mente de Davi foram interrompidas quando o chefe da guarda lhe perguntou:

– Muito bem, vamos ao que interessa. Todos sorriem concordando com a proposta.
– Davi, eu sei que você não deve fazer a menor ideia do motivo porque você está aqui, não é mesmo?

A primeira suspeição de Davi se confirma. “Eles não sabem sobre a minha unção. Se soubessem não teriam me perguntado isso”. A ausência de Samuel nesse encontro está explicada. Se não me chamaram aqui para dar prosseguimento ao que Samuel havia feito, então o que eles querem comigo?

– Nem imagino, respondeu Davi.
– A situação é a seguinte: o rei Saul… o chefe da guarda descreve todo o cenário.
– E onde eu me encaixo nesta história fascinante?
– Então. Este jovem aqui se lembrou de você como um que sabe tocar bem a harpa.
– Certo, certo, a harpa, pontuou Davi.
– E essa é a ideia que tivemos: você tocará a harpa sempre que…, explicaram-lhe detalhadamente todo o plano.
– … e o espírito maligno irá embora, certo? completa Davi a última frase do raciocínio deles por uma dedução lógica.
– Só por curiosidade: alguém de vocês já ouviu falar de algum caso onde isso realmente funcionou?
– Não é assim que os profetas fazem para que o Espírito do Senhor venha sobre eles e profetizem? Eles tocam a harpa e os outros instrumentos, reponderam eles.

Os servos e oficiais de Saul possivelmente se lembravam ainda da ocasião quando ele foi ungido por Samuel e, posteriormente, recebeu o Espírito do Senhor enquanto seguia um grupo de profetas que vinha profetizando e tocando harpa (1Sm 10:5-6). Naquele dia Saul, de fato, fora transformado num novo homem.

– O rei Saul sabe do motivo porque eu estarei diante dele? disse Davi, e a conversa continuou… 
– Sim. Foi ele quem autorizou a sua vinda.
– Como vocês sabem que o tal espírito é da parte do Senhor?
– O rei é um ungido do Senhor. Como um espírito que não fosse da parte de Deus poderia atormentá-lo?
Era ungido! Vocês não se lembram do que disse Samuel? O Senhor rejeitou a Saul.
– Sim, mas ele ainda continua sendo um ungido do Senhor.
– Olhem, a ideia de vocês é tão doida que até me fascina. Porém, o que mais me chama a atenção é o fato do rei ter aceitado isso. Eu aceito o emprego. Tocarei a harpa com muito prazer.

Davi sabia que uma situação como aquela só poderia ter a mão de Deus por detrás dos detalhes. Nem sempre é possível discernir como a vontade de Deus se entrelaça com os planos dos homem, especialmente quando esses planos estão envolvendo a nossa vida. O sentimento de estar apenas servindo interesses alheios, de cooperar efetivamente com projetos que tem tudo para dar errado e de abandonar o seu próprio chamado são extremamente desanimadores. Além disso, por que Davi perderia o seu tempo com pessoas como Saul, o qual não teria mais chance de continuar no cargo? Por que participar de um esforço para remediar a situação de uma pessoa desequilibrada e rejeitada por Deus? Embora Davi tivesse identificado muita imaturidade e compreensões errôneas nos planos dos servos de Saul, a oportunidade de participar e assistir o desfecho dessa “loucura” era muito convidativa. Eu quero fazer parte disso para ver o que Deus está fazendo.

– Então, este é o famoso Davi ben-Jessé. Seja bem-vindo! saudou Saul curioso para conhecer as habilidades do moço.
– Trouxe a guitarra? brincou Saul.
– Por enquanto só um cabrito e alguns pães, meu senhor. Eles representam a gratidão da nossa família pela tua bondade.
– Qual bondade?
– De permitir que o teu servo participe e veja o que Deus tem feito neste lugar.

As próximas cenas desta história jamais passaram pela cabeça de Saul, de Davi ou de qualquer um de seus servos e conselheiros. O relato bíblico nos diz (1Sm 16:21) que em pouco tempo Saul criou tamanho afeto por Davi que mandou pedir a Jessé que o seu filho permanecesse definitivamente no palácio. Quem diria? Algumas lições que podemos aprender com isso: 

Lição 1: Raramente nossos planos se concretizam independentemente dos planos dos outros. Os planos de Davi ao chegar ao palácio eram bem diferentes e distantes daquele que aqueles conselheiros estavam tramando. Quase nada daquilo que eles estavam planejando iria somar ao que Davi buscava, ou seja, eles queriam mesmo era resolver o problema deles. Todavia, Davi acreditava e agia como se os seus planos e os de todos os outros fossem apenas uma pequena parte do grande plano de Deus; se houvesse algum indício de que o Senhor estava agindo, ele queria ver e participar, nem que isso lhe custasse ter que abrir mão dos seus próprios planos. Na verdade, olhe só, o “ministério” de tocar a harpa na presença de Saul resultou em muitos salmos que hoje fazem parte da Bíblia (cf. títulos dos Salmos 18, 52, 54, 57 e 59). Este “ministério” ficou tão famoso que posteriormente, mesmo não sendo para espantar demônios, Davi separou os filhos de Asafe, de Hemã e de Jedutum para a tarefa de “profetizar com a harpa” (cf. 1Cr 21:1). O maior legado que Davi deixou foram os salmos que ele compôs; a maioria deles com o pequeno e importante lembrete “para ser cantado com a harpa”. Deus concretizou os planos de Davi, dos servos de Saul, de Saul e de Jessé enquanto concretizava o seu grande plano.

Lição 2: Esteja sempre pronto para redefinir o seu conceito de ‘canoa furada’. O conceito de ‘canoa furada’ comunica a ideia de um projeto fadado ao fracasso, algo que não merece o nosso investimento. Assim, mesmo que Saul representasse uma ‘canoa furada’ (o que não era o caso), Davi preferia afundar com Saul e fazer parte do grande plano a manter-se isolado do que Deus estava fazendo. Ah! Ai está. Você já parou para pensar que aquilo que pode ser o maior de todos os seus obstáculos são, na verdade, os seus próprios planos? Geralmente definimos se a canoa está furada com base em nossos planos. Davi pensou rápido e pulou para dentro da canoa. Em pouco tempo ele descobriu que no grande plano de Deus estava o privilégio de desfrutar do amor de Saul (o que deve ter inspirado Jônatas a amar Davi de igual modo) – e pela sua extrema lealdade, Saul o fez seu escudeiro (cf. 1Sm 16:21). O que parecia inicialmente ser uma receita para o fracasso se tornou num grande canteiro de ideias para a composição de muitos salmos. Quem diria?

 

Daniel Santos

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