O “vírus” mais letal

Toda vez que leio o final do livro dos Juízes penso em duas palavras: letalidade e contágio. Em nossos dias, palavras que se tornaram comuns por causa das notícias sobre o coronavírus. Porém, o que elas representam se estende a algo mais perigoso e com abrangência maior, a busca por autonomia. Ela é o “vírus” mais letal.

Os últimos capítulos de Juízes nos falam sobre a degeneração moral e social em Israel em seu ápice. Vemos um filho roubando sua mãe, uma tribo de Israel formando um culto pagão, o estupro e assassinato de uma mulher e uma guerra civil. Tudo isso ocorreu porque “naqueles dias, não havia rei em Israel, cada um fazia o que achava mais certo” (Jz 17.6, 18.1, 19.1 e 21.25). Assim, o sentimento de autonomia (tenho minha própria lei) se espalhava dentro do povo chamado para ser servo do Senhor. Seu poder de contágio e de morte pode ser vistos em três momentos: 1) na casa de Mica (cap. 17); 2) nas tribos de Dã e Benjamim (18-19); 3) na nação de Israel (20-21).

Um indivíduo e sua casa

O “vírus” mais letal começa a afetar a unidade mais básica (célula) da nação: um individuo e sua casa. Mica, após roubar sua mãe e devolver-lhe o dinheiro, constrói uma casa de ídolos sob a bênção dela[1]. Além de adotar um culto idólatra em Israel, contrata um levita para oficiar como sacerdote aos falsos deuses. Este, procurando uma oferta de trabalho, aproveita a oportunidade e ignora sua consagração ao Senhor. Nesta casa, cada um está fazendo o que acha mais certo, rebelando-se contra o Senhor.

Duas tribos

Depois, a tribo de Dã está à procura de terra, pois desde o princípio teve insucesso frente aos cananeus (cf. Jz 1.34). Quando alguns espiões danitas chegam à casa de Mica, em duas visitas, oferecem uma proposta de trabalho melhor para o seu sacerdote. O levita, aceita a oportunidade de dar um salto na carreira – de sacerdote de uma casa para sacerdote de uma tribo. Assim, também em Dã cada um fazia o que achava mais certo.

Naquele tempo, em que não havia rei sobre Israel, outro levita se hospedou na casa de um morador de Gibea, no território da tribo de Benjamim. Foi até aquela cidade pois temia passar a noite próximo a Jerusalém, que naquela época era ainda dominada pelos jebuseus (cf. Jz 19.11-12). Afinal, estes poderiam ser hostis. Desse modo, foi até a região de Benjamim e jamais imaginou que a hostilidade estaria dentro de uma tribo israelita. Um grupo de benjamitas formado por homens perversos (cf. expressão “filhos de belial” de Jz 19.22), tentaram o violentar enquanto estava hospedado na cidade. Acabaram violentando e assassinando sua concubina. Ali, também, em Benjamim, o vírus “mais” letal contagiou a tribo, em que cada um fazia o que achava mais certo.

Uma nação

Sem luto e movido apenas pela vingança, o levita cortou sua concubina em doze pedaços e os enviou para todas as tribos de Israel. Estas se ajuntaram para pelejar contra Benjamim que não quis punir os homens perversos que estupraram a mulher (cf. Jz 20.12-14). Por isso, o Senhor autorizou que a tribo fosse quase que totalmente destruída. Havia tamanho mal na nação de Israel, que o Senhor ordenou batalha contra Benjamim como ordenou batalha contra os cananeus. Veja a semelhança:

Levantaram-se os israelitas […] consultaram a Deus, dizendo: Quem dentre nós subirá, primeiro, a pelejar contra Benjamim? Respondeu o Senhor: Judá subirá primeiro. (Jz 20.18)

Depois da morte de Josué, os filhos de Israel consultaram o Senhor, dizendo: Quem dentre nós, primeiro, subirá aos cananeus para pelejar contra eles? Respondeu o Senhor: Judá subirá (Jz 1.1)

Em Israel existia iniquidade tal como a dos cananeus. Porque o “vírus” mais letal, aquele em que cada um faz o que acha mais certo parecia ter contaminado o corpo inteiro de Israel.

Conclusão

Não existe personagem bom no final de Juízes. Não existe juiz para libertar Israel dos seus inimigos. Isto, porque o inimigo está dentro da própria nação de Israel. Em juízes não há relato de israelita morto por cananeus ou outros povos, porém está repleto de israelitas mortos por israelitas. Quando cada um faz o que acha mais certo não importa a vontade da outra pessoa, seu direito e nem mesmo se é alguém próximo. O fim é uma tragédia que teve inicio em uma disposição interna: ser independente de Deus.

Porém, a mesma frase que ecoa o problema, também ecoa a solução: “não havia rei em Israel, cada um fazia o que achava mais certo”.

Era necessário um rei em Israel. Ele viria. Não Saul, benjamita, que foi proclamado rei pelo próprio povo. Mas, Davi, de Judá, proclamado rei pelo próprio Deus.

Assim, também, é necessário um rei sobre nós. Ele já veio. Não cada um de nós, autoproclamando o próprio reinado e fazendo o que achamos mais certo. Mas, Jesus, proclamado rei pelo próprio Deus, fazendo a vontade dele até ao final (Hb 10.9; Lc 22.42).

Geimar Lima

Para ler mais ensaios como este, clique aqui.

.

.


[1] Ironicamente, a especialidade da mãe de Mica era amaldiçoar (cf. 17.2).

Lembrou-se de alguém enquanto lia? Compartilhe.

Como pastor, amo descobrir a beleza do Senhor em sua Palavra e criação. Como pesquisador, empolgo-me por saber que ela é inesgotável.

Deixe uma resposta