Minha “Caverna de Adulão”

Baseado em 1 Samuel 22.1-2.

Pense rápido: Quem são as pessoas que sempre andam com você, ou andam à sua procura? Que tipo de pessoa gosta de estar ao seu lado? Quando viajamos até uma cidade, para visitar nossos parentes, quem são aqueles que sempre aparecem para ver você, quando ficam sabendo que está na cidade?

O relato encontrado no primeiro livro de Samuel, capítulo 22, descreve uma situação inesperada e estranha. Davi conseguiu se esconder na caverna de Adulão para não ser encontrado por Saul e seus soldados. Pelo jeito, ele não era muito bom para escolher esconderijo, pois sua família e mais quatrocentas pessoas ficaram sabendo rapidamente onde ele estava.

O texto descreve a situação nos seguintes termos: Davi retirou-se dali e se refugiou na caverna de Adulão; quando ouviram isso seus irmãos e toda a casa de seu pai, desceram ali para ter com ele. Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens” (1Sm 22.1–2).

Esse texto faz parte de uma longa história de Davi fugindo de Saul. No capítulo anterior, Davi havia conseguido escapar da morte, fingindo ser alguém com algum tipo de distúrbio mental. Quando viu o comportamento amalucado de Davi, o rei dos filisteus chegou a comentar: “Faltam-me a mim doidos, para que trouxésseis este para fazer doidices diante de mim?” (1Sm 21.15). Coincidência ou não, agora é Davi que se vê rodeado por quatrocentos homens com toda sorte de problemas. Eis algumas lições que tenho aprendido com esse texto.

Por que Davi precisa se refugiar nessa caverna?

Todas as suas tentativas de se esconder acabavam sendo descobertas e Saul ficava sabendo da sua localização. Um exemplo clássico disso está em 1 Samuel 23.25 “Ouvindo-o Saul, perseguiu a Davi no deserto de Maom”. Outra razão importante era o risco que uma pessoa corria, caso resolvesse dar abrigo a Davi. O sacerdote Aimeleque pagou caro por ter feito isso. Saul matou oitenta e cinco sacerdotes naquela casa, além de mulheres e crianças, porque não quiseram “cooperar” com a investigação de Saul. “A caverna é um lugar neutro”, pensou Davi.

Quem são as pessoas que procuraram Davi nessa caverna?

Se Saul mandou matar adultos e crianças da casa de Aimeleque, o que faria com os pais e irmãos de Davi, caso se atrevessem oferecer-lhe abrigo? Seus irmãos, na verdade, nem eram tão fãs de Davi assim, mas a mãe e o pai certamente aguardavam ansiosos o momento seguro para solidarizarem-se com a aflição do filho.

O segundo grupo de pessoas, que descobriu o esconderijo de Davi e foi se encontrar com ele, era formado por aqueles que se achavam “em aperto”. O conceito de “aperto” aqui é o de pessoas oprimidas ou perseguidas. Hoje, quando dizemos que alguém está “em aperto”, a situação financeira é a primeira que vem à mente. Não é o caso aqui. Essas pessoas certamente se identificaram com Davi por causa do “aperto” que ele também sofria.

O terceiro grupo de pessoas é chamado de “homens endividados”. Agora, sim, a ideia é de aperto financeiro. Entretanto, as consequências do endividamento no mundo daquela época eram bem diferentes daquelas dos nossos dias. Para que uma pessoa fosse conhecida como “endividada”, ela, possivelmente, já teria se tornado escrava de alguém, para conseguir quitar seus débitos. Assim, a expressão “homens endividados” é sinônima de “homens escravizados”. Por que estavam atrás de Davi é uma boa pergunta. Quem sabe buscavam um tipo de “anistia” caso Davi se tornasse rei.

O quarto grupo de pessoas é chamado de “amargurados de espírito”, isto é, deprimidos ou atormentados. A única razão que vejo para o interesse dessas pessoas por Davi é a esperança de que o “remédio” usado com Saul funcionasse com outras pessoas. Quando Davi tocava sua harpa diante do rei, o espírito que o atormentava saia dele e Saul se sentia melhor. Ora, havia centenas de pessoas, com dificuldades semelhantes, querendo ouvir o canto de Davi. Pessoas nessas condições fariam o possível e o impossível para chegar perto de Davi.

De certa forma, Davi não era responsável pelo interesse que as pessoas acabavam tendo por ele, mas a sua reação a tudo isso tem implicações importantes. O texto diz que Davi se tornou o chefe deles e usou aquele grupo como sua guarda pessoal. Esses quatrocentos homens se tornaram os “valentes de Davi”.

Qual é a relevância dessa experiência vivida por Davi para nós hoje?

A caverna de Adulão é uma figura que ficou para a história como local messiânico. O profeta Miquéias é quem menciona especificamente essa caverna: “Enviar-te-ei ainda quem tomará posse de ti, ó moradora de Maressa; chegará até Adulão a glória de Israel” (Mq 1.15).

O profeta Isaías também descreve o papel do Messias em termos que nos fazem lembrar desse episódio com Davi: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados; a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os que choram e a pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo SENHOR para a sua glória” (Is 61.1–3).

Cristo é o nosso Davi, a única esperança que temos. Uma ocasião, quando pregava numa sinagoga, ele leu o texto de Isaías 61 e disse que seu ministério era o cumprimento daquela profecia. Ora, isso faz de Cristo o nosso Davi. Aliás, um Davi infinitamente melhor. Isso também faz da igreja a nossa “Caverna de Adulão”.  A igreja é um local de aflitos, oprimidos e endividados, mas aflitos-oprimidos-endividados que colocam sua esperança em Cristo.

Quando o povo de Deus se reúne com a esperança certa, na pessoa certa, não importa se somos amargurados ou endividados. Para ele nós somos um grande exército de testemunhas levando as boas novas do Evangelho.

2016-07-16_1801

 

 

 

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