Será que foi um tiro no pé?

 

O pedido de Moisés

O primeiro confronto de Moisés com Faraó era para ser apenas uma formalidade. Isso porque ele sabia, de antemão, que Faraó não aceitaria a ideia, em hipótese alguma. Pense na proposta: dispensar toda a classe trabalhadora do país para um acampamento espiritual no deserto. E não era qualquer deserto, tinha que ser no deserto do Sinai, que toma três dias de viagem só para chegar lá. Imagine a preparação da logística de um evento como esse. Provavelmente, eles precisariam de uma semana de preparação, três dias de viagem de ida, uma semana de festividades e culto, mais três dias de viagem de retorno e uma semana para retomarem completamente as obras no Egito. Isso é quase um mês de folga.

Mas, continue lendo, tem muito mais. Moisés justifica seu pedido dizendo que o culto a Deus no deserto já passava da hora de ser prestado e, por esse motivo, havia risco de castigo: “deixa-nos ir, pois, caminho de três dias ao deserto, para que ofereçamos sacrifícios ao SENHOR, nosso Deus, e não venha ele sobre nós com pestilência ou com espada” (Êx 5.3).

Eu não sei se Moisés tinha noção daquilo que estava pedindo. Eu quero crer que sim, pois fora enviado por Deus com uma mensagem específica. O pedido de Moisés não só era absurdo, humanamente falando, como mal justificado, também humanamente falando. Como Moisés e Arão eram apenas mensageiros, eles deveriam ver tudo aquilo, apenas como audiência, para cumprir tabela. Deus iria libertar o povo de qualquer forma, pensavam eles.

A reação de Faraó

A resposta de Faraó focaliza no ponto central do diálogo, isto é, a identidade do Deus de Israel. Faraó não conhecia Javé e também não o via na posição de fazer esse tipo de solicitação – identidade e autoridade são os pontos levantados por Faraó nesse primeiro encontro.

Da perspectiva de Faraó, toda essa movimentação dos hebreus podia ser explicada com três fatores: a) distração: Moisés e Arão estavam distraindo o povo para que não fizesse o trabalho (5.4), b) ociosidade: por duas vezes a ociosidade foi apresentada como motivo principal da ideia de ir ao deserto para fazer uma festa ao Senhor (cf. 5.6, 17), e por último, c) mentira: para Faraó, os motivos apresentados por Moisés; de que o Senhor aparecera no deserto, reivindicando adoração, não passavam de uma grande mentira; e o povo só acreditava por conveniência, em virtude da ociosidade (cf. 5.9). Com essa compreensão, Faraó achou o pedido para liberação do trabalho totalmente descabido. 

A reação do povo hebreu

Quando Moisés e Arão contaram essa história de libertação ao povo, pela primeira vez, a reação foi positiva: “Arão falou todas as palavras que o SENHOR tinha dito a Moisés, e este fez os sinais à vista do povo. E o povo creu; e, tendo ouvido que o SENHOR havia visitado os filhos de Israel e lhes vira a aflição, inclinaram-se e o adoraram” (Êx 4.30–31).

Quando Faraó alterou as regras e as condições do trabalho, causando imediatamente a aflição do povo, a reação foi diferente: “Olhe o SENHOR para vós outros [Moisés e Arão] e vos julgue, porquanto nos fizestes odiosos aos olhos de Faraó e diante dos seus servos, dando-lhes a espada na mão para nos matar” (Êx 5.21).

Será que foi um tiro no pé?

Pense comigo. O que Moisés esperava que acontecesse? Deus já lhe havia advertido de que Faraó não deixaria o povo sair. O que o povo esperava que acontecesse? Eles também conheciam o plano de Deus que havia sido revelado a Moisés. Eles sabiam que Faraó não iria ceder sem antes lutar com todas as forças. O que, então, causou a mudança de ânimo do povo? Onde foi parar toda aquela confiança demonstrada no dia em que Moisés e Arão relataram a missão pela primeira vez?

A nova atitude dos hebreus demonstra que eles não esperavam duas coisas: o ódio de Faraó e uma ameaça real de morte. A situação deles já era ruim o suficiente e não precisavam que alguém provocasse Faraó para torná-la pior.

A primeira reação de Moisés ao novo ânimo do povo parece ter sido de solidariedade. Moisés reconhece que o pedido a Faraó pode ter sido um tiro no pé. Pelas palavras de sua oração a Deus, Moisés também estava surpreso com o ocorrido: “Então, Moisés, tornando-se ao SENHOR, disse: Ó Senhor, por que afligiste este povo? Por que me enviaste? Pois, desde que me apresentei a Faraó, para falar-lhe em teu nome, ele tem maltratado este povo; e tu, de nenhuma sorte, livraste o teu povo” (Êx 5.2).

Conclusão

Há várias coisas que precisamos sempre de ter em mente quando nos envolvemos com aquilo que Deus está fazendo. Eu listo aqui algumas delas:

  • Deus sempre faz algo além daquilo que esperamos. Esse “algo além” pode ser imediatamente bom para nossa vida ou temporariamente ruim. No final, até mesmo o que foi temporariamente ruim, comprovará ser bom. Lembre-se do caso de José no Egito, explicando aos seus irmãos que o que eles haviam feito foi, no fim, compreendido como algo bom.
  • Mesmo quando Deus promete nos fazer algum bem, as motivações e a justificativas para isso vão muito além de nós. Deus não queria apenas tirar o povo do Egito. Ele queria libertá-lo de tal forma que, quando os outros povos ouvissem o ocorrido, eles temessem e adorassem ao Deus de Israel.
  • Entender corretamente aquilo que Deus fará não é uma condição para que seus planos se concretizem em nossa vida. Eu digo isso pensando na oração de Moisés quando reclamou de não ter acontecido libertação alguma (Êx 5.23). Ora, não me causa admiração o povo ter reagido de forma tempestiva; mas, sinceramente, não esperava que Moisés tivesse a reação que teve. Isso me ensina, então, que nem mesmo os líderes que Deus chama para agirem como instrumentos de libertação entendem perfeitamente o que acontecerá. A confiança demonstrada pelo povo (… e o povo creu [Êx 4.30]) naquilo que aconteceria murchou. Mesmo assim, por amor e bondade, Deus continua realizando aquilo que ele mesmo planejou.

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5 Comentários

  • Sandro Vaz

    25 de julho de 2016 at 17:27

    Muito bom texto. Gostei muito. Fiquei pensativo com o fato de que Moisés, mesmo ciente da revelação de Deus, havia ainda necessidade de fé, de sorte que todos estão encerrados em desafios símiles. Embora Moisés soubesse de antemão o que Deus faria, não sabia como e quando o seria. Assim, exigiu-se dele, proporcionalmente, tanta fé quanto aos demais hebreus. E isso, creio, é para que todos vivam sob a dependência de Deus. Serviu-me ainda para meditar que, embora conheçamos a Deus, pelo fato dele ser de altíssima sabedoria e poder, sempre seremos cercados de alguma incompreensibilidade sobre seu modus operandi, mas nunca sobre seu caráter. Afinal de contas, Ele os libertou.




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  • Roberta Lima

    24 de julho de 2016 at 08:07

    Ótimo texto. Simples e objetivo. Sinceramente, não sabia que a proposta de Deus pro povo era irem ao deserto e voltarem, na condição de escravos. Sempre achei que a libertação era da condição sub-humana de servidão naquele país.
    Parabéns, Doc Dan, pela exposição precisa e edificante!




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    • Daniel Santos Jr

      24 de julho de 2016 at 08:28

      Obrigado Roberta. Essa proposta de Deus começou assim, mas depois até mesmo faraó percebeu que eles estavam mesmo querendo fugir. Eu creio que Deus planejou começar o pleito nesses termos para fins pedagógicos.
      Obrigado pela dica de correção.




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