Como decidir onde estudar teologia

Tenho recebido constantemente e-mails pedindo sugestões quanto a seminário ou universidade onde cursar um bacharelado em teologia, mestrado ou até mesmo doutorado. Eu já pensei várias vezes em criar uma resposta padrão em que pudesse apenas trocar o nome do destinatário, mas isso seria uma falta de respeito para com alguém que, a meu ver, está pedindo conselhos para tomar decisões importantes em sua vida.

Não é fácil dar conselhos e dicas nesta área, pois há uma quantidade enorme de variáveis que se alternam de pessoa para pessoa, por exemplo: idade (acima de 40 anos – é quase impossível conseguir bolsa de estudo); situação financeira (pessoal ou da instituição em que trabalha); situação familiar (casado, solteiro, com filhos, etc.); proficiência em línguas modernas de pesquisa (inglês, francês ou alemão); quanto tempo dispõe para completar os estudos; como e onde pretende aplicar o conhecimento adquirido e, por fim, (e esta é a pergunta mais difícil de responder), por que você precisa fazer o curso que deseja?

Quando a procura é o primeiro curso de teologia, tenho sugerido sempre quatro perguntas que podem servir de parâmetro para uma decisão: Quem serão os seus mestres? Quem foram os mestres daqueles que serão os seus mestres? Que tipos de pessoas têm procurado aprender com aqueles que serão os seus mestres? Que tipo de atuação e influência aqueles que serão seus mestres têm fora da instituição de ensino?

1. Quem serão os seus mestres?

É muito comum encontrar pessoas procurando um curso de teologia por causa de associação denominacional, acomodações (moradia para casados ou solteiros) ou localização (próximo de casa). No caso da associação denominacional, às vezes, há uma exigência clara encaminhando seus líderes para um determinado local onde possam  receber treinamento teológico. Nestes casos, não há muito que escolher.

Todos estes aspectos são importantes e podem definir ou restringir bastante as possibilidades, mas gosto sempre de frisar a importância de se saber quem serão os seus mestres. Há muita coisa que pode ser aprendida sem que haja necessidade de frequentar um seminário ou qualquer sala de aula; mais do que muitos imaginam. Todavia, se você chegou ao ponto de procurar uma instituição de ensino teológico pressupõe-se que o relacionamento professor/aluno acontecerá. Em outras palavras, você terá que aprender com alguém, seja este alguém um professor ou um grupo de pesquisa. Professores terão a responsabilidade de guiá-lo, desafiá-lo e encorajá-lo em sua jornada, mas eles terão também a difícil tarefa de avaliar o seu progresso. É nessa hora que você lamentará ou dará graças a Deus pelos seus mestres, pois a sua experiência de aprendizagem e formação pode se transformar rapidamente num pesadelo.

Quando eu digo “quem” serão os seus mestres, a minha ênfase não é necessariamente na lista que aparece no website da escola, pois muitos professores não estarão disponíveis para todos os programas oferecidos naquela instituição. Outras vezes o professor é apenas visitante ou palestrante esporádico. Poderia enumerar vários casos de pessoas que me disseram estar interessadas em um seminário por causa de um professor em particular. Que decepção quando as informei de que a pessoa que procuravam ter como mestre não ensinava mais naquela instituição há vinte anos.

Eu aconselho você a conhecer seus mestres antes de se decidir quanto ao seminário ou escola de teologia. Procure um jeito de assistir a uma aula (mais de uma, se for possível) com tal professor ou professora, e veja como é a comunicação com os alunos, como se prepara e apresenta seu conteúdo. Tente uma entrevista com tal professor ou professora e troque algumas idéias com o propósito de perceber sua disposição de caminhar junto com você em sua jornada. Ainda que não seja muito comum, não é raro encontrar pessoas que são excelentes escritores, mas péssimos professores. Ninguém é perfeito. Continue apenas lendo seus livros. Há muitos professores que não querem qualquer contato com alunos, pois estão bastante comprometidos com suas pesquisas e outras responsabilidades administrativas. Novamente, ninguém é perfeito. Alguém tem que administrar a escola. Em suma, conheça aqueles que serão os seus mestres antes de decidir sobre o local onde você buscará sua formação teológica.

Quando você encontrar mestres que correspondam às suas expectativas, busque aprender com eles nem que seja sentado debaixo de uma árvore. Vale a pena! Aprender com quem quer ensinar, quem sabe ensinar e tem amor pelo que ensina faz toda a diferença, especialmente quando o assunto é a Bíblia. Que decepção ter que aprender (neste caso a melhor palavra seria apenas “assistir aulas”) com alguém que você percebe não tem o menor prazer no que está fazendo, não sabe ensinar e não tem o menor respeito e honestidade com a Bíblia.

2. Quem foram os mestres dos seus mestres?

Quando você começa a conhecer mais a fundo os seus mestres, uma coisa fica evidente: eles são representações melhoradas ou pioradas daqueles que foram os mestres deles. Você precisa entender uma coisa: ensinar é apenas a resposta inevitável do desejo e necessidade de aprender. Geralmente quem não gosta de aprender não gosta de ensinar.  A maior lição que os mestres dos nossos mestres podem ter passado é exatamente este amor pela aprendizagem. Quando você procura saber quem foram os mestres daqueles que serão os seus mestres e descobre que ele ou ela perpetua práticas de ensino simplesmente porque foram ensinados daquela forma, cuidado. É bem possível que ele ou ela nunca irá mudar seu jeito de dar aula. Em outras palavras, é improvável que uma pessoa que tenha estudado cinco anos de sua vida com alguém extremamente piedoso e honesto para com a Bíblia venha a se tornar um teólogo cético e desonesto.

Veja bem, eu não quero dizer com isso que alguém que tenha estudado sob a orientação de um teólogo conhecido pela sua posição cética em relação à inspiração das Escrituras não mereça nossa confiança. Não necessariamente. O discípulo pode ser uma versão melhorada do seu mestre. Tenho grande respeito e consideração por alguém que tenha estudado numa instituição secular (e até hostil ao evangelho) e não se torna uma versão piorada dos seus mestres. Sua experiência de contato com aquele contexto só o preparou para dialogar com maior firmeza e sofisticação entre aqueles que não compartilham da mesma convicção teológica de nossa tradição denominacional.

Se eu tivesse que refazer toda a minha caminhada de formação teológica eu seguiria o seguinte roteiro no que tange aos mestres dos meus mestres: a) procuraria saber quem foi o orientador de pesquisa deles, b) procuraria saber quem foram os seus contemporâneos naquela instituição e o que eles estão fazendo hoje, c) procuraria saber e conhecer um pouco sobre o conceito de aprendizagem dos mestres dos meus mestres e como isso foi assimilado pelos que serão os meus mestres, e d) eu procuraria saber se eles querem acompanhar a minha jornada de aprendizagem (isto vale especialmente para orientação de dissertação).

Tendo dito todas estas coisas, não posso deixar de mencionar um ponto: há muitos professores excelentes, com os quais você passaria a vida inteira aprendendo se fosse possível. Eles ensinam porque amam aprender, amam ensinar e amam aos que querem aprender com eles. Onde você encontra esses professores? Comece a procura descobrindo quem foram os seus mestres.

3. Que tipos de pessoas querem aprender com seus mestres?

A nossa jornada de aprendizagem e formação teológica não depende apenas dos mestres. Eu defendo a tese de que devemos fazer parte de uma comunidade de aprendizagem. Neste caso, aqueles que procuram aprender com os meus mestres irão influenciar a minha formação. Mas antes de entrar nesta questão, deixe-me apenas lançar um alerta – comece a desconfiar de mestres que atraem somente pessoas céticas e desonestas para com a Bíblia. Comece a desconfiar se nenhum dos alunos que procuram aprender com seus mestres está servindo a Deus envolvido com uma igreja local. O tipo de pessoas que comumente tem procurado aprender com meus mestres deveria me dizer alguma coisa sobre aquilo que devo esperar desses. Em outras palavras, por que você acha que aquele professor despertou o interesse em você e naquela pessoa totalmente diferente de você? O que há em comum entre você e aquela tal pessoa?

Em segundo lugar, como eu disse anteriormente, os tipos de pessoas que se assentam numa sala de aula comigo terão uma influência inquestionável em minha formação teológica. Tenho ensinado há mais de quinze anos em diversos contextos e posso garantir que a influência do grupo (negativa ou positiva) é inevitável, determinante e recomendada! Logo, a escolha de onde você procurará sua formação teológica deve levar em consideração os tipos de pessoas que também procuram aprender com seus mestres.

4. Que tipo de influência e atuação externa estes mestres têm?

Um bom professor ensina aquilo que ele ou ela é. Isto requer integridade. Antes de escolher uma instituição de formação teológica, procure saber o tipo de influência e atuação que os seus mestres têm no mundo exterior à sala de aula. O motivo é apenas o de verificar consistência e integridade de caráter. Uma verificação como esta lhe permite rapidamente descobrir se a sala de aula funciona como um palanque ou como um laboratório de aprendizagem. Quando o elemento motivador de aprendizagem do seu mestre é uma causa pessoal que ele ou ela tem (racismo, feminismo, liberalismo, fundamentalismo, etc.), a sala de aula se torna facilmente um palanque que divulga suas convicções entre os alunos. Quando o elemento motivador de aprendizagem é uma causa do reino de Deus, nossos mestres geralmente serão mais abertos para aprender, também com os alunos e demais professores. Além disso, conhecer a influência externa deles nos possibilita saber se há integridade de caráter.

Qual é o melhor seminário? Qual é o melhor curso de teologia? Quem são os melhores mestres? Onde estão os melhores alunos? Mais cedo ou mais tarde você perceberá que essas quatro perguntas estão bastante atadas ao que entendemos ser aprendizagem.

Há muitos alunos que não deveriam jamais estar numa sala de aula procurando formação teológica, pois eles não sabem o que querem, não querem abrir mão do que “acham que sabem”, e não estão dispostos a aprender com aqueles (professor e alunos) que realmente sabem. Por outro lado, há muitos homens e mulheres de Deus que deveriam investir mais e o mais rápido possível em sua formação teológica, pois suas vidas são um testemunho de que todos nós precisamos de mestres e de discipulado constante.

Daniel Santos

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7 Comentários

  • Jeane dos Santos Mota

    24 de outubro de 2012 at 08:17

    Prezado Prof. Daniel.
    Quero lhe parabenizar pela abordagem linda, simples e de muita profundidade sobre o assunto.
    Estudo teologia e, hoje sei, na prática, o quanto suas orientações são preciosas para a escolha de uma instituição de ensino teológico (não somente teológico)… Mesmo sem ter essas informações, busquei referencias das quais cita em seu artigo, e me sinto 90% satisfeita com a instituição na qual estou estudando.
    Grata.
    Jeane S. Mota

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  • Alex Barbosa

    19 de outubro de 2012 at 16:33

    Me ajudou muito, obrigado mesmo. compartilho do mesmo pensamento quando diz que podemos estudar mesmo fora de um seminário. Por enquanto é isso que estou fazendo, procurando boas obras, bons estudos, palestras, enfim, estudando de boas fontes.
    Aguardo o momento em que poderei fazer um seminário, isso queima dentro de mim.
    Mas uma vez, muito obrigado.
    Abraços.

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  • Alberto Costa

    13 de outubro de 2012 at 12:32

    Prezado Daniel,
    poucas vezes encontrei uma abordagem tão lúcida a esse respeito. E não só a respeito do estudo da Teologia. Os princípios que você estabeleceu em seu artigo aplicam-se a qualquer ramo do saber. Tenho formação incompleta em Teologia, mas também em Marketing Estratégico (sou consultor empresarial e coach executivo) e sei que essas são perguntas inteligentes a serem feitas por qualquer um que esteja buscando aprender qualquer coisa.
    Obrigado.

    Alberto Costa

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