O corajoso plano de Bitia

Ilustração: Cleo Santos

Ilustração: Cleo Santos

 

 

 

 

 

Embora em sua primeira aparição nas Escrituras ela tenha permanecido anônima, Bitia foi uma importante personagem na história de Israel, num momento quando poucos tinham o interesse ou a coragem de demonstrar compaixão pelo povo de Deus. Bitia é o nome da filha de faraó que encontrou o cesto com o menino Moisés na margem do rio Nilo. Seu nome aparece em uma das genealogias no primeiro livro das Crônicas (1 Cr 4.17), que também nos informa que ela se casou com o israelita Merede posteriormente. Uma comparação entre a genealogia de Moisés e essa de  Crônicas nos mostra que, de fato, essa filha de faraó foi a mesma acolheu o menino Moisés. No relato que temos da principal contribuição de Bitia para o povo de Israel (Êx 2.5-10), há três atitudes marcantes que se destacam: seu envolvimento, sua corajosa compaixão e seu programa social.

1. Seu envolvimento.

Sendo a filha do faraó, Bitia poderia muito bem ter se mantido isolada de toda a convulsão social que acontecia em seu país, causada pela decisão de seu pai de mandar matar todos os bebês do sexo masculino, nascidos naqueles dias. Segundo lemos em Êxodo 1.22, a ordem era um tipo de convocação geral: “Então, ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem aos hebreus lançareis no Nilo, mas a todas as filhas deixareis viver”. Há duas coisas cruciais para observarmos aqui. Primeiro, a ordem foi dada ao seu povo, ou seja, ao povo egípcio. Por quê? Por causa da “ineficiência” das duas parteiras hebreias, que receberam ordem para matar os meninos hebreus. Segundo a explicação dada por elas, as mulheres hebreias eram mais robustas e nem aguardavam as parteiras para dar à luz seus filhos; quando chegavam, já tinham nascido. Assim sendo, faraó resolveu convocar todo o seu povo para fazer o que as duas parteiras não estavam dando conta sozinhas.

O que isso tem a ver com o “envolvimento” de Bitia com os problemas sociais? Ora, a filha de faraó não precisava ir tomar banho no rio Nilo; aliás, isso era até desaconselhável num momento como aquele. Imagine as mães hebreias cujos filhos tinham sido mortos, encontrando a filha do faraó assassino num local público, tendo, como guarda-costas, somente um grupo de donzelas? Também, é muito pouco provável que o palácio estivesse passando por algum tipo de racionamento de água.

A saída de Bitia para banhar-se no rio deve ser entendida como um pretexto, pois, tendo as condições perfeitas para banho no palácio, ela resolveu se deslocar até onde os bebês dos hebreus estavam sendo jogados. À luz do que lemos em Êxodo 1.22, as margens do rio, naqueles dias, era um local de lamento e choro para as mães hebreias, e a presença de uma representante da família real ali só acirraria os ânimos. Assim sendo, eu entendo a ida de Bitia ao rio como uma decisão firme e resoluta de não se esconder atrás das atrocidades causadas pelo seu pai. Ela saiu de sua zona de conforto e quis ver de perto a gravidade daquilo que estava acontecendo. Mesmo que a Bíblia não afirme explicitamente ter sido esse o motivo para ela ir ao rio, sua reação imediata, ao ver o menino Moisés, demonstra seu distanciamento da postura do seu pai.

2. Sua corajosa compaixão.

O relato de Êxodo descreve a reação de Bitia, ao encontrar o cesto, nos seguintes termos: “Abrindo-o, viu a criança; e eis que o menino chorava. Teve compaixão dele e disse: Este é menino dos hebreus” (Êx 2.6). Alguém poderia argumentar que ela teve compaixão porque o menino chorava. Mas, se esse fosse o caso, porque a sua primeira fala ao abrir o cesto foi “este é menino dos hebreus”? Há tantas coisas que poderiam ser ditas por uma mulher que acabara de encontrar uma criança abandonada no rio, por que Bitia resolveu dizer isso? A sua frase continha todos os elementos de que um cidadão egípcio precisava para jogar o menino de volta ao rio, sem remorso, pois estaria cumprindo as ordens do rei. Felizmente, antes de Bitia dizer qualquer coisa, ela teve compaixão dele. Ter compaixão e poupar o menino foi um ato de muita coragem, pois certamente essa notícia chegaria ao conhecimento do seu pai, do mesmo modo que a notícia de que Moisés matara um egípcio e escondera na areia chegou ao conhecimento de faraó. Rompendo com todas essas amarras e prováveis consequências, Bitia demonstra compaixão e, ao fazê-lo, nos ensina que até para demonstrar compaixão é preciso de coragem. Esse sentimento não é próprio dos covardes, nem daqueles que convenientemente se isolam do mundo ao seu redor.

3. Seu programa social

Após ter encontrado o menino Moisés e ter tido a coragem de poupá-lo, Bitia poderia ter encerrado por ali o seu envolvimento com ele. Ela poderia, por exemplo, ter respondido à proposta de Miriã (de trazer uma mãe hebreia para amamentá-lo) com as seguintes palavras: “Aqui está! Leve este menino e encontre uma mãe hebreia que possa adotá-lo ou criá-lo”. Se ela tivesse feito isso, já seria um grande gesto de compaixão, pois teria poupado a vida do menino Moisés. Todavia, Bitia resolveu se envolver de corpo e alma com aquele menino em três aspectos:

Primeiro, ela aceita a proposta de Miriã que, diga-se de passagem, era muito arriscada; Bitia poderia nunca mais ver nem a sombra daquela criança. Havia certamente mães egípcias que poderiam amamentar o menino, se não por compaixão, pelo salário que ela pagaria, mas ela decidiu estabelecer um envolvimento duradouro que tivesse um impacto na sua sociedade. Ao aceitar a proposta de Miriã, Bitia estava dizendo, alto e bom som, que não se sujeitaria às leis do seu país que promoviam a matança de crianças. Além disso, ela reconheceu e apoiou o direito das mães hebreias de criar seus próprios filhos. Sua atitude dizia: “Se meu pai decretou leis que legalizam a tortura das mães hebreias, fazendo-as enjeitar seus filhos (cf. At 7.19), eis aqui o meu programa social: eu quero incentivar a compaixão e quero criar o ‘bolsa amamentação’ para mulheres que, além de leite, tenham compaixão e coragem para oferecer”.

Segundo, ela investiu no futuro daquele menino. Ao aceitar adotá-lo, Bitia criou condições para que o menino Moisés se beneficiasse de privilégios que somente um egípcio teria naqueles dias, proporcionando saúde, educação e segurança palacianas. É verdade que Moisés iria abandonar tudo isso posteriormente, mas o gesto de Bitia entrou para a história.

Terceiro, ela imputou ao menino a esperança do seu próprio povo, quando lhe colocou o nome “Moisés”. Se o menino foi levado de volta ao palácio quando já era “grande” (cf. 2.10), é provável que tivesse outro nome mais comum entre os filhos dos hebreus. O nome que Bitia escolheu era um título que foi pela primeira vez utilizado para o faraó que conseguiu libertar o Egito da ocupação estrangeira; seu nome era “Amoses”. Depois dele, vieram outros que também usaram parte desse nome em seus títulos, como o Tutmoses. Ao chamar o menino de “Mosis” (ou “Moisés”), Bitia colocou nele sua esperança simbólica de que não seria pela opressão nem ela chacina que sua sociedade prevaleceria, mas pela compaixão, envolvimento e investimento.

Para Bitia não importava se Moisés fosse ou não permanecer na sociedade egípcia. Ela estava fazendo um investimento para a humanidade em seus dias. O mundo, em seus dias, precisava de voltar a valorizar a vida humana, independentemente da nacionalidade.

Se a justificativa das parteiras foi de que as mulheres hebreias eram mais vigorosas que as egípcias para dar à luz seus filhos (cf. Êx 1.19), mulheres egípcias, como Bitia, não ficavam para trás em sua coragem para sair da zona de conforto e pagar o preço da compaixão.

Daniel Santos

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