Maldições hereditárias

Qual é o legado espiritual que estamos deixando para os nossos filhos? Eu penso nessa pergunta sempre que leio a advertência apresentada por Deus no segundo mandamento: “…pois eu visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem” (Êx 20.5). Inicialmente, esse texto parece dizer que, em alguns casos, os filhos acabam pagando por iniquidades que seus pais cometeram. “Isso não é justo”, é a resposta mais comum que ouço. Justo ou não, precisamos saber o que exatamente o texto está dizendo. Neste post, eu respondo a três perguntas que podem ajudá-lo a entender um pouco mais sobre o assunto: Há, realmente, as chamadas maldições hereditárias? Tem como checar se estamos sendo afetados por alguma maldição como essa? Qual a maior lição que devemos aprender com essa advertência do Senhor?

1. Como saber se estou sendo afetado por uma maldição hereditária?

A advertência do segundo mandamento não pode ser aplicada indistintamente a qualquer situação. O contexto original do segundo mandamento é específico; ele trata de idolatria. A frase “visito a iniquidade dos pais nos filhos” vem logo após a exortação para não se envolver com idolatria. A primeira vez que a expressão “visitar a iniquidade” aparece no livro de Êxodo depois da entrega da lei, Israel estava envolvido com a construção e adoração do bezerro de ouro – idolatria (Êx 32.34). Houve também uma ocasião quando o povo de Jerusalém resolveu usar esse conceito errôneo de maldição hereditária para justificar seus próprios pecados. Eles até inventaram um provérbio: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram?” (Ez 18.2). No caso dessa geração que cantarolava esse provérbio, o pecado era outro. Deus reagiu imediatamente e com veemência dizendo: “Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este” (Ez 18.3, 20).

Pode parecer até uma contradição; uma hora Deus diz que visita a iniquidade dos pais nos filhos, outra hora diz que o filho não levará a iniquidade do pai. Como entender isso? A solução para o dilema está no tipo de pecado envolvido. Quando lemos o capítulo inteiro de Ezequiel 18, vemos que os pecados são bem distintos e variados. Assim sendo, o primeiro teste para saber se estamos sendo afetados por aquilo que nossos pais fizeram é verificar o envolvimento com a idolatria. Vale a pena relembrar o que o segundo mandamento entende por idolatria: construir ou adquirir uma imagem de escultura (ou qualquer gravura) com a finalidade de adorá-la como se fosse um deus.

A idolatria é uma iniquidade tão detestada por Deus que em alguns casos ele nos ordena até a sermos vigilantes com os da própria casa: “Se teu irmão, filho de tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu amor, ou teu amigo que amas como à tua alma te incitar em segredo, dizendo: Vamos e sirvamos a outros deuses, que não conheceste, nem tu, nem teus pais, …não concordarás com ele, nem o ouvirás; não olharás com piedade, não o pouparás, nem o esconderás, mas, certamente, o matarás” (Dt 13.6-9). Isso significa, então, que devemos matar nossos parentes que são idólatras? A lei cumpriu seu propósito e nos advertiu da gravidade do pecado. Porém, não podemos nos esquecer de que Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se, ele próprio, maldição em nosso lugar (Gl 3.13). Logo, devemos manter a lembrança de que Deus detesta a idolatria a ponto de punir seu único Filho por causa desse nosso pecado.

2. Há realmente maldição hereditária?

O tema “maldição hereditária” é geralmente suscitado quando não conseguimos mais explicar as tragédias e dificuldades que não param de rondar e afligir pessoas “inocentes”. Em circunstâncias como essas, a advertência, encontrada no segundo mandamento (Êx 20.5), de que Deus visita a iniquidade dos pais nos filhos, tem sido usada, por décadas, em alguns círculos evangélicos, como remédio para todos os males. Se não consigo arranjar um emprego, se não consigo me livrar de uma enfermidade, se não consigo me proteger de assaltos, se não consigo me livrar das dívidas, então só pode ser por causa de alguma iniquidade que meus pais cometeram. Seguindo esse raciocínio, os evangélicos adeptos dessa linha não pensam duas vezes antes de anunciar o grande dia de quebra de maldições, quaisquer que sejam elas. Se o que essas pessoas fazem funciona ou não, a pergunta permanece: Será que existe realmente a tal de “maldição hereditária”? Será que nós, reformados, não deveríamos fazer algo a esse respeito?

Para começar a responder a essa pergunta, vamos estabelecer um ponto de partida importante: quando o Antigo Testamento fala de “até à terceira e quarta geração”, a ideia não é de algo que vem se arrastando por décadas. Era possível castigar quatro gerações no mesmo dia e no mesmo local, considerando que viviam em clãs. O significado dessa expressão aponta, não tanto para a duração do castigo, mas para a abrangência. A primeira vez que essa admoestação foi feita, foi logo após a construção e adoração do bezerro de ouro. Após Deus ter recusado a intercessão de Moisés para perdoar o povo, a narrativa bíblica continua dizendo: “Então, disse o SENHOR a Moisés: Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim. Vai, pois, agora, e conduze o povo para onde te disse; …porém, no dia da minha visitação, vingarei, neles, o seu pecado. Feriu, pois, o SENHOR ao povo, porque fizeram o bezerro que Arão fabricara” (Êx 32.33–35). Há dois pontos para os quais gostaria de chamar sua atenção. Primeiro, Deus não castiga nem amaldiçoa indistintamente, mas sim “aquele que pecar contra ele”. Ou seja, mesmo que as consequências do pecado acabem atingindo terceiros, o castigo de Deus pune aquele que peca contra ele. Segundo, a “visitação de Deus” aconteceu num dia determinado e não num período prolongado. O período de quarenta anos que o povo peregrinou pelo deserto não pode ser diretamente associado com a visitação mencionada; isso faz parte do castigo pela incredulidade manifestada pelos israelitas quanto ao testemunho dos dois espias fieis (Josué e Calebe), e da adesão ao parecer dos espias incrédulos.

Dito isso, precisamos responder à nossa pergunta: Há realmente maldição hereditária? Não, não há. Aquilo que as pessoas comumente entendem como maldição hereditária, ou seja, um tipo de castigo alojado nos membros de uma família que é passado de pai para filho, geração após geração, não existe. O que existe é a advertência divina contida no segundo mandamento de que o castigo e as consequências dos nossos pecados poderão afetar nossos filhos e netos.

3. Qual a maior lição que devemos aprender com essa advertência?

A maior lição contida na advertência do segundo mandamento tem que ver com o amor de Deus. Se por um lado ele visita e pune a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e a quarta geração; por outro, ele faz misericórdia até mil gerações. Esse é o lado mais importante e mais fácil de ser cumprido. Em lugar de tentar fugir do castigo de Deus, não seria bem melhor e mais eficiente tentar amá-lo e guardar seus mandamentos a fim de que a sua misericórdia nos alcance? Mil gerações são quarenta mil anos. Se ninguém mais amou a Deus ou guardou seus mandamentos desde os dias de Noé, nós ainda estaríamos dentro do prazo de validade para usufruirmos de sua misericórdia. Assim, a advertência contida no segundo mandamento deveria nos desafiar a amar a Deus e guardar os seus mandamentos e não a nos preocuparmos com estratégias de fugir de “maldições hereditárias”.

Se as chamadas “maldições hereditárias” realmente existissem, o melhor jeito de quebrá-las seria amando a Deus e guardando seus mandamentos. A melhor maneira de proteger nossos filhos das consequências dos nossos maus caminhos é ensiná-los a amar a Deus e guardar seus mandamentos, pois o resultado será mais eficiente e duradouro.

Daniel Santos

 

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