Tenho que ir à igreja nas férias?

Uma jovem de uma igreja me escreveu perguntando:

Olá, pastor Daniel. Como podemos aplicar o quarto mandamento a um período de férias do trabalho e da faculdade? O mandamento ordena que lembremos de santificar o dia do Senhor e nisso ter comunhão dedicada com ele e a igreja. Mas, estando de férias, devemos olhar esse período como um mês todo separado para observar esse mandamento? Ou a estrutura 6/1 permanece? E se permanece, que tipos de trabalho, além dos regulares à rotina domiciliar, podemos fazer?

 

Resposta

Olá Vera (nome fictício), obrigado pela pergunta. Ela me ajudou a pesquisar mais sobre o assunto e escrever de uma perspectiva bem mais específica. Enquanto refletia sobre o que você perguntou, duas ideias pareciam estar sempre batendo de frente. Se o dia do Senhor (seja ele sábado, domingo ou qualquer outro dia) deve ser um dia para descansarmos no Senhor, seria incorreto pensar que nos demais dias podemos tirar um descanso do Senhor? Quando eu digo “tirar descanso do Senhor” eu tenho em mente: a) não precisar ir à igreja se estiver viajando de férias, b) não precisar ir à igreja todos os domingos, mesmo não estando em viagem, c) não precisar participar de todas as atividades que a igreja promove, d) não precisar chegar na hora ao culto, mas dormir até mais tarde, e) não precisar dar o dízimo nas férias, já que não estou “usando” a igreja, f) não precisar ler a Bíblia todos os dias, g) não precisar orar todas as vezes que for tomar uma refeição ou na hora de dormir e, principalmente, i) não precisar me explicar diante dos outros a razão para não fazer qualquer dessas coisas. Esse é o significado de tirar um descanso do Senhor. Eu já ouvi todas estas razões de membros de igreja pelo Brasil a fora.

O outro lado da moeda. Descansar no Senhor, na visão de alguns (e tenho, igualmente, ouvido isso em vários contextos) significa: a) aproveitar as férias para cooperar com todas as atividades da igreja, já que durante o semestre é impossível fazer isso, b) aproveitar as férias para colocar em dia aquele plano anual de leitura que está atrasado cinco meses, c) aproveitar as férias para realizar jejuns e vigílias de oração em favor de vários motivos que foram acumulados no semestre, d) aproveitar as férias para ir naquela viagem missionária no sertão do Brasil, e) aproveitar que estou de férias e nunca chegar atrasado e nem deixar de ir à igreja aos domingos, mesmo estando de viagem, e f) aproveitar que estou de férias e ir atrás daqueles que sumiram da igreja no período de suas férias.

Eu reconheço, Vera, que as duas descrições têm pontos que podem ser utilizados com sabedoria por todos. Não permita que usos e costumes de uma denominação num período específico da história sirva de regra universal para você. A sua pergunta foi como aplicar o dia do Senhor no contexto de férias. Assim sendo, deixe-me propor alguns pontos para auxiliar sua decisão:

Primeiro: O dia do descanso proposto no quarto mandamento não prevê férias, da mesma maneira que o Senhor também não tira férias de nós. No centro do quarto andamento está uma preocupação e zelo com um relacionamento de amor entre a criatura e o criador. Amor não tira férias.

Segundo: O nosso período de merecidas e necessárias férias não altera o modelo 6/1; continuamos com a responsabilidade de fazer “toda a nossa obra” em seis dias e descansar no Senhor no sétimo dia. O que você terá que resolver é o que será incluído no pacote “toda nossa obra”. Há coisas que não deveríamos fazer nem nas férias nem em qualquer período do ano. Por exemplo: Deixar de entregar o dízimo e ofertas porque não estou “usando” a igreja. Pode crer, eu ouvi isso de um membro de igreja. Em termos gerais, então, pensemos assim: nas férias, os seis dias são seus. Planeje e use-os com sabedoria e deleite. Planeje para não cair no pecado do consumismo, da preguiça ou do ativismo. Use como critério de sabedoria o conselho das Escrituras: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Filipenses 4.8).

Terceiro: O quarto mandamento, quando estabeleceu a modelo 6/1, rompia com um estilo de vida cultivado por séculos na sociedade do Egito, cujo calendário dividia o mês em três ciclos de dez dias (sem o décimo primeiro para descanso). Desta forma, Vera, para os Israelitas que ouviram pela primeira vez esse mandamento, a reação deve ter sido de grande alívio. Quem cresceu num sistema desumano de trabalho ininterrupto deve ter tido muita dificuldade de se acostumar com o descanso e de achar o que fazer num dia de descanso. A esse respeito, Jesus disse que o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado. Quem precisa do descanso somos nós, não Deus.

Quarto: Descansar no Senhor é o estágio final de uma longa peregrinação tentando levar nossa alma a sossegar. Devemos buscar o que o salmista diz ter conseguido: fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo” (Salmos 131.2). Quem não consegue fazer a alma sossegar não consegue descansar no Senhor.

 

Em resumo, cada um tem um estilo de vida diferente, uma condição social diferente, um ambiente familiar diferente, ou um estágio na vida diferente. Nem tudo que vale para um valerá para todos em todo o tempo ou ao mesmo tempo. Assim, meu conselho para você é: busque com todas as suas forças (enquanto você tiver!) conhecer e amar o Deus que criou você e o mantém vivo, pois sem isso você nunca encontrará descanso.

 

Boas férias!

Daniel Santos

 

 

 

 

 

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