O significado de Leviatã e Behemot

O texto abaixo é parte do meu comentário no livro de Jó, saindo em breve.

O uso desses animais como exemplos do poder e domínio de Deus é motivo de grande discussão entre os estudiosos. Devemos entender a descrição como sendo literal ou como uma metáfora para algo maior? A descrição do primeiro animal tem sido entendida por algumas traduções como se tratando de um hipopótamo, por causa de algumas características tais como: “deita-se debaixo dos lotos, no esconderijo dos canaviais e da lama” (40:21). Outras traduções preferem usar o termo hebraico sem traduzi-lo: Behemot. As traduções que utilizam o nome próprio (Behemot) ficam livres da necessidade de explicarem as características físicas que não se combinam com a de um hipopótamo.

A apresentação desse primeiro animal no discurso de Deus pressupõe um conhecimento prévio por parte de Jó, do contrário o convite “Contempla agora o hipopótamo, que criei contigo” não faria o menor sentido. Mesmo que não tenhamos como identificar com precisão a identidade do animal, devemos manter a premissa de que Jó sabia do que Deus estava falando. Ainda que paire dúvidas sobre a identidade do animal, a finalidade dele no discurso de Deus é clara: “Acaso, pode alguém apanhá-lo quando ele está olhando? Ou lhe meter um laço pelo nariz?” (40:24). O hipopótamo é um símbolo daquilo que humilha a fúria humana, colocando-a em perspectiva. O argumento não é que o ser humano jamais poderá vencer ou matar o hipopótamo, mas sim que ele é um lembrete ao homem das suas limitações. Dentro do discurso de Deus, o desafio do hipopótamo é mais um lembrete da incapacidade de Jó em lidar com o soberbo, pois a frase “contempla agora o hipopótamo” (literalmente, Eis o hipopótamo!) vem logo depois do desafio de calcar aos pés o soberbo (40:12).

a finalidade do segundo animal – o Leviatã, é semelhante ao desafio do hipopótamo. Primeiramente, é bom lembrar que a opção de algumas traduções por crocodilo em lugar do nome próprio leviatã, é essencialmente especulativa. As características desse animal não coincidem completamente com as de um crocodilo; há algumas, inclusive, que o assemelha mais ao que conhecemos em mitologias de outros povos como “dragões” (cf. “da sua boca saem tochas” [41:19], “o seu hálito faz incender os carvões” [41:21]). A mesma descrição de leviatã volta a aparecer posteriormente nos salmos e profetas. No Salmo 74:14, o termo hebraico leviatã é traduzido também por crocodilo (“Tu espedaçaste as cabeças do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto”), mas diferentemente do que acontece em Jó, ele é destruído pelo Senhor. No Salmo 104:26 o mesmo termo é traduzido por monstro marinho (“Por ele transitam os navios e o monstro marinho que formaste para nele folgar”) e, à semelhança do que vemos em Jó, ele é descrito também como uma criação de Deus feita para viver no fundo do mar. Tal descrição não combina completamente com a de um crocodilo. No caso do profeta Isaías, o paralelismo compara e descreve o leviatã em três etapas: “Naquele dia, o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão [heb. leviatã], serpente veloz, e o dragão [heb. leviatã], serpente sinuosa, e matará o monstro [heb. Tanin] que está no mar.

Quando textos da antiga civilização Ugarítica foram encontrados, tratando de figuras mitológicas muito semelhantes à descrição de Leviatã, muitas traduções começaram a considerar o termo leviatã como um nome próprio que dispensava tradução. O conceito de um monstro marinho começou a ser associado com ideias mitológicas do mundo antigo sendo polemizadas ou ironizadas pela literatura bíblica.

Mais importante de que tentar entender os detalhes da descrição deste animal misterioso, devemos procurar entender o motivo porque Deus usou essa descrição no seu diálogo com Jó. A ocorrência de tópicos que não estão diretamente relacionados com o dilema de Jó não é mais novidade, porém a descrição do Leviatã recebeu um tratamento bem mais elaborado do que todos os demais. Por que ele faz isso? Vejamos as etapas da descrição e, assim, poderemos entender melhor a finalidade desta figura no discurso de Deus.

[Tem muito mais!]

Daniel Santos

5 Comentários

  • Mário Miranda

    18 de dezembro de 2016 at 10:57

    Graça e Paz!
    Alguns autores relacionam o Behemot com o mamute, caso de Herman Bavinck no vol.2 de sua Dogmática Reformada: “A geologia também ensina claramente que os seres humanos foram contemporâneos dos mamutes, o hebraico behemoth (Jó 40.15), e que o mamute, portanto, pertence ao tempo histórico” (p.505). Isso seria possível?
    Abraços!!!

    Responder
    • Daniel Santos

      18 de dezembro de 2016 at 18:22

      Olá Mário, obrigado pela informação. Eu não sabia que Bavinck, em particular, tinha essa posição. Eu creio que a definição de behemot como um mamute é desnecessária e improvável. É improvável porque o texto bíblico não nos ajuda neste sentido; as informações não são conclusivas. É desnecessária porque a mensagem do texto bíblico não depende de uma definição exata da identidade do animal.

  • glauberson@cardiol.br

    17 de agosto de 2016 at 23:59

    A graça e paz de Cristo nosso Senhor
    A descrição de Behmut pode encaixar-se com um dinossauro (apatossauro), sugerindo que dinossauros e homens coexistiram na mesma época.

    Responder

Deixe uma resposta