As três reações de Maria

Como você tem reagido ao evento do natal? A conhecida expressão “Ave Maria!” (a versão em latim da saudação do Anjo Gabriel) é usada hoje em dia quase de forma inconsciente para expressar espanto. Coincidência ou não, uma das reações de Maria na ocasião quando tal saudação lhe foi dirigida foi também de espanto. Mas essa não foi a única e nem a mais importante das reações que ela teve. O espanto foi sua reação inicial, mas há muito que podemos e devemos aprender com o que aconteceu depois. Isso me leva a perguntar qual aspecto a respeito do nascimento de Cristo ainda nos causa algum espanto? A conhecida cena do menino Jesus na manjedoura parece ter domesticado bastante nossos questionamentos, levando-nos a olhar para aquele evento como algo absolutamente normal e natural que poderia ter acontecido no quintal da casa de qualquer um. Relendo recentemente as narrativas nos evangelhos, fiquei surpreso ao ser lembrado, mais uma vez, de que o evento do nascimento de Cristo não foi nem normal e nem natural. Dentre as passagens que mais me alertaram para esse fato está a que registra o encontro de Gabriel com Maria. Considere comigo as três reações de Maria, descritas no Evangelho de Lucas (Lc 1.26-38).

A PRIMEIRA REAÇÃO FOI DE ESPANTO

O trecho da narrativa em Lucas é bem dividido. Cada uma das três seções termina com uma reação de Maria ao que fora falado pelo anjo Gabriel. A primeira reação tem a ver com a saudação feita. O modo como Gabriel a saudou foi inesperado e isso causou uma reação de espanto. O texto diz que ela “perturbou-se muito” (v. 29) e, em decorrência disso, “pôs-se a pensar no que significaria esta saudação”.

O que exatamente causou o espanto? Alguns estudiosos costumam dizer que foi o fato de não ser comum um homem saudar uma mulher do modo como Gabriel o fez, tomando como exemplo o caso da mulher samaritana. Eu não penso assim. A cena é distinta daquela em que Jesus iniciou um diálogo com a mulher samaritana. Aqui, Maria foi saudada por um anjo; no caso da mulher samaritana, Jesus era, na visão dela, um homem como qualquer outro. A abordagem de Gabriel foi estritamente formal; uma saudação cuidadosamente formulada. No caso de Jesus, ele iniciou um diálogo informal. Mas, o que, então, era tão espantoso nas palavras do anjo?

A saudação “Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo” é um tipo de convite para que Maria se alegrasse por dois motivos: 1) porque ela foi muito favorecida e 2) porque o Senhor estava com ela. Até onde sabemos, Maria não estava triste ou aflita, pelo contrário, devia estar muito feliz por estar desposada (equivalente ao noivado) e pronta para ser recebida como esposa. Aliás, deve ser por causa disso que ela se espantou com a saudação, pois ela já estava alegre pela aproximação do casamento,  e já sabia que o Senhor estava com ela, bem como com todos os tementes a Deus e já sabia que, de alguma maneira, ela havia sido favorecida por tudo o que Deus faz ao seu povo em geral.

É exatamente por saber de todas essas coisas que ela achou a saudação estranha. Maria sabia que não combinava com o perfil do grande Arcanjo Gabriel deixar a presença de Deus só para cumprimentar uma donzela que encontrou “um partidão”. Alguma coisa mais importante deveria estar por trás daquela saudação. E foi isso que a deixou perturbada, tentando entender o motivo e o significado daquelas palavras.

Qual você acha que seria a reação a uma saudação como essa a uma noiva de hoje próxima do seu casamento? Uma possibilidade seria a de o anjo saudá-la e ser completamente ignorado, pois ela estaria com fones de ouvido. Caso o anjo precisasse tocá-la de leve em seu ombro, o susto seria tão grande que a cena teria um desfecho bem diferente. Essa possibilidade é uma amostra de pessoas que nunca estão intencionalmente observando o que Deus tem feito ou poderá fazer no meio do seu povo. Outra possibilidade seria que o anjo encontrasse alguém atenta à realidade, mas totalmente desinformada quanto ao que Deus fez por meio de anjos ou quanto à expectativa messiânica a respeito de Jesus. Nesse caso, a resposta à saudação seria apenas o tradicional “quem é você?” ou “como você entrou no meu quarto?”

A perturbação de Maria foi real e levou-a a refletir sobre o possível significado daquilo. A lição que aprendo com essa primeira reação é que algumas pessoas já não se perturbam mais com nada que ouvem a respeito do Evangelho. Hoje temos o privilégio de ouvir não somente uma saudação, mas todo o conselho de Deus contido nas Escrituras. Não é um bom sinal o fato de ouvirmos tudo isso sem manifestar qualquer reação de espanto semelhante a que Maria teve.

Quando pessoas tementes a Deus se espantam com os grandiosos atos de Deus na história, tal espanto se torna uma ferramenta poderosa para descobrir um pouco mais da insondável riqueza dos seus planos. Quando pessoas que não são tementes se espantam com o que Deus faz, tal espanto se torna uma justificativa para afastar-se dele com decepção.

Maria parece fazer parte do primeiro grupo de pessoas, já que o anjo Gabriel percebeu sua perturbação e resolveu “explicar melhor” o motivo por trás de sua saudação.

A SEGUNDA REAÇÃO FOI DE DÚVIDA

A segunda reação de Maria vem em resposta ao comentário adicional de Gabriel que revela um plano que envolverá o Deus Todo Poderoso, o Filho do Altíssimo e também Maria. Nesse plano, cada um terá um papel específico: a) O papel de Maria: Conceber, dar à luz um filho e chamá-lo de Jesus (v. 31); b) O papel de Deus: dar o trono de Davi ao filho de Maria (v. 32); c) O papel de Jesus: reinar para sempre sobre a casa de Jacó (v. 33).

Ora, Maria era uma moça piedosa e tinha algum conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento e, portanto, tinha uma noção do que o anjo estava falando. O plano tratava da principal expectativa que o remanescente fiel do povo de Israel sempre aguardou ansiosamente. Entretanto, observe a reação de Maria: as mesmas palavras que trouxeram paz ao seu coração (aliviando-a do espanto inicial) também trouxeram uma grande dúvida: “Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?”  (1.34)

Foque, por um instante, nessa palavrinha “como”. Esse é o centro da sua dúvida. Isso significa que “como” um filho nascido dela seria alguém com o privilégio de se assentar no trono de Davi não a incomodava. Isso significa que “como” um filho nascido de uma mulher de origem humilde seria grande e seria chamado filho do Altíssimo também não a incomodava. Uma coisa só lhe incomodava: COMO o tal filho iria nascer?

Maria sabia que uma criança não nascia de uma chocadeira, e sabia também que o anjo tinha conhecimento de que ela não tinha ainda tido relações sexuais com seu noivo. Ou seja, ela deve ter entendido o plano e a parte que cada um iria desempenhar. O que ela não entendia é por que o nome do seu noivo não apareceu em nenhum momento.

Essa segunda reação de Maria nos ensina lições importantes: a) Que entender o que Deus está fazendo ou fará nem sempre garante que você entenderá o modo como ele quer usar você nesse plano. b) Que Deus sempre nos usará em seu plano de uma maneira que fique claro para nós e para os outros que somos apenas um instrumento. c) Que devemos esperar sempre ver etapas impossíveis nos planos de Deus.

A TERCEIRA REAÇÃO FOI DE ACEITAÇÃO

Finalmente, chegamos à terceira reação de Maria, após o anjo ter lhe explicado a forma que ela cumpriria seu papel nos planos de Deus: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus. Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (1.35-37).

Deixem-me perguntar aqui com muita honestidade: Você entendeu como exatamente esse menino vai ser gerado? José definitivamente não vai fazer parte do plano. O Espirito Santo, o poder do Altíssimo, uma sombra envolvendo-a e pronto. O filho vai nascer. Honestamente, eu teria mais dificuldade de entender essa parte do que a primeira onde o anjo explicou que o nascido seria rei para sempre. Mas parece que Maria se deu por satisfeita com a explicação. Tudo isso é um grande mistério, mas é algo que combina perfeitamente com as coisas que Deus faz. Para pessoas como Maria, o mais importante é saber que Deus estará envolvido e guiando todo o processo e que para ele nada é impossível. Os detalhes de como tudo isso transcorrerá não farão a menor diferença.

Vejam bem, isso não significa aceitar pela fé sem mesmo entender. Isso significa aceitar que não podemos entender tudo o que Deus faz nem o modo como ele fará. A oferta voluntária de Maria para ser instrumento no plano de Deus revela seu desejo de fazer parte de qualquer coisa que Deus tenha para fazer e o seu prazer em participar disso. Note que o anjo Gabriel não estava solicitando permissão para incluir Maria naquele plano; ele estava apenas informando. Mesmo assim, sua reação de aceitação demonstrou sua alegria por ser parte da grande expectativa messiânica que se cumpria em seus dias: “Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra” (1.38).

CONCLUSÃO

Neste natal, reflita em algo que você acredita ser impossível de acontecer e pergunte-se: será que tenho uma compreensão correta do modocomo as coisas devem acontecer? Será que tenho entendido corretamente o meu papelnisso que aguardo acontecer? Qualquer que seja a resposta, nunca se esqueça das palavras finais do anjo: “porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (1.38).

Daniel Santos

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